O papel da intuição
Voltemos ao problema das funções psicológicas, na obra de Jung, cujo objetivo prático, clínico, é o delineamento de um tipo mais geral. Tiramos daí duas conclusões: em primeiro lugar a tipologia, em Jung, é a expressão de um funcionalismo, ou seja, são as quatro funções psicológicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição) que respondem, ao problema dos tipos. Ao passo que, num segundo momento, entra em cena um segundo tipo de funções relativas à existência singular: a persona ou função social; a sombra (o inconsciente pessoal) ou função compensadora; anima/animus ou função complementar; e o self ou função reguladora. Em segundo lugar, damo-nos conta do quanto é estéril cair-se numa tipomania, utilizando exclusivamente as quatro funções psicológicas, na medida em que se trata apenas da metade do caminho quanto ao problema da subjetividade, no pensamento de Jung.
Nossa hipótese é a de que as funções dão-se concomitantemente como componentes da experiência; mais precisamente, três delas: o pensamento como função intelectual ou analítica, o sentimento como atividade emocional e valorativa e a sensação correspondendo ao esquema sensório-motor que visaria a ação prática. Estas funções não se sucederiam atuando uma de cada vez mas atuariam concomitantemente, constituindo o comportamento ou atividade psicológica consciente. Haveria uma hierarquia de expressão que se traduziria naquilo que Jung formulou como grau de desempenho de cada uma das funções: função superior ou dominante (aquela que caracteriza o principal meio de relação com a vida, para cada indivíduo); função auxiliar ou secundária (de eficácia intermediária); e função inferior ou primitiva (aquela pouco desenvolvida e cujo desempenho se daria sempre de modo impulsivo ou pouco elaborado). A eficácia de cada função varia de indivíduo para indivíduo. Ou de um grupo para outro, se quisermos estabelecer a tipologia de uma coletividade. Jung coloca, por exemplo, para a civilização ocidental, o pensamento como função superior, sendo o sentimento a função inferior a ser elaborada.
Pensamos ser a quarta função, a intuição, que apresenta um estatuto especial. Ela é a função sintética por excelência, em primeiro lugar porque, para que se torne efetiva, para que atue, depende de um certo alinhamento ou coordenação das outras três, e principalmente pois é a função responsável pela ligação do ego ou sujeito consciente ao Self, como centro regulador. Diríamos mesmo que a função da intuição seria a de comunicar a cosmovisão do Self à personalidade consciente, estabelecendo com isso a coniunctio (conjugação dos opostos, operação alquímica traduzida em termos psicológicos por Jung como a possibilidade latente de união entre os dois centros da psique: o ego, agente consciente e o Self, orientador inconsciente).
lipão/fê escreveu às
2:49:00 PM -