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Quinta-feira, Julho 20, 2006

A Subjetividade em Jung parte II

A união ego/self.

O self é o sujeito, na concepção de Jung (a rigor esse termo apresenta duas acepções, significa ora a ?totalidade da psique? ou o sujeito em sua totalidade, ora aparece com o sentido de ?centro regulador da psique?) Enquanto totalidade da psique, caracteriza-se por um ?multifuncionalismo?, levado a termo por um certo número de funções com atribuições diferenciadas. A especificidade dessas funções está ligada às suas respectivas dinâmicas e a psique é o resultado do intercâmbio que se verifica entre as diferentes funções, a correlação entre os movimentos decorrentes da realização de suas atribuições funcionais e o grau em que as realizam, individual e coletivamente, produzindo um ?tipo?.

O sujeito, como o próprio nome indica, está submetido ou subjugado, é confrontado ou submisso a dois tipos de determinações, se o considerarmos em sua totalidade, a saber: as experiências ou processos conscientes, e as influências inconscientes (estas últimas passíveis de serem constatados apenas por seus efeitos conscientes).

O segundo sentido do termo ?self? apresenta-nos um paradoxo interessante: o self é também o centro regulador da psique ou spiritus rector inconsciente (?orientador espiritual inconsciente?), justamente por corresponder à totalidade da psique. Ao que tudo indica, para Jung há uma apercepção macrocósmica inconsciente que, em determinadas condições, torna-se acessível ao ego, à consciência e passa a atuar como orientadora no processo de orientação. Tentaremos explicar como isso se dá, recorrendo à letra de uma canção. Para isso, faz-se necessária uma breve digressão sobre um ponto pertinente.

O que é um caso clínico? A nosso ver (e podemos aí recorrer à confirmação do próprio Jung e de Freud) a clínica não deve limitar-se aos casos de psicoterapia individual, grupal ou institucional, mas pode também elaborar suas análises a partir de produções artísticas, culturais, científicas e religiosas; de fenômenos sociais ou políticos; de figuras históricas, ficcionais ou biográficas, entre outros ?casos?. Temos os exemplos de Freud com Schreber, Da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Dostoievski etc.; e os de Jung com Picasso, Joyce, o fascismo e seus ditadores, Nietzsche e outros. Podemos assim, perfeitamente, recorrer a um poema, a um romance, conto, pintura ou escultura e falar sobre a vida de seu criador, ou pelo menos sobre o que ele vê na vida, sobre como ele olha para a vida. Do mesmo modo no caso de uma manifestação coletiva (vejam-se as análises, profundamente distintas, aliás, de Jung e Freud acerca das religiões), como comentário clínico acerca de grupos humanos ou da humanidade em geral. Dito isto, voltemos ao ponto que nos interessa, qual seja, a concepção do self como compreensão macrocósmica.

Há uma versão musical da ?Volta do filho pródigo?. Trata-se de uma canção de um músico irlandês, Rory Galagher, chamada ?Going to my home town? (Voltando pra minha cidade natal?):
?Mama?s in the kitchen baking up a pieDaddy?s in the backyard ?Get a job, son,You know you ought to try?
I packed down my bag, I headed down the roadI got me a job from Henry FordBut I made a mistake, I moved much too farAnd now I know what the lonesome blues are??

(Tradução livre: Mamãe está na cozinha fazendo uma torta/Papai está no quintal: ?Tá na hora de você arranjar um emprego, filho?/Peguei minhas coisas e botei o pé na estrada/Consegui um emprego com Henry Ford/Mas cometi um erro: fui pra muito longe/E agora eu sei o que é a solidão...?).

O que se segue, tanto na letra como na melodia, é uma celebração da volta ao lar, do retorno à cidade natal, através da repetição festiva do refrão: ?Yes, I?m going to my home town?. Há outros indícios, nas letras de Rory Galagher, nos quais não cabe aqui nos determos, de que ele se encontrava vivendo o que Jung denominou um ?processo de individuação?. No entanto, o que nos interessa é partirmos dessa saga para ilustrarmos o sentido desse conceito e é o que tentaremos, em seguida.

A tendência do ego ou sujeito consciente é ?excêntrica?, ou seja, mergulhar na distância, buscar o horizonte, ?afastar-se da terra natal?. O ego é andarilho. Irá necessariamente distanciar-se do Self, o centro regulador da psique, do campo da consciência em sua totalidade. Até que num determinado momento, devido a ?experiências muito duras, difíceis?, reinicia o caminho de volta para a terra natal, a ?Casa do Pai?. Mas essa volta não é uma fuga, um retorno amedrontado, uma busca de isolamento, reclusão, proteção. É, muito mais, um movimento de ligação, o estabelecimento de um intercâmbio, de uma dinâmica de troca, entre os dois pólos da psique, segundo Jung, ego e Self.

O Self, enquanto centro regulador da psique, é um ?mecanismo? ou atividade inconsciente, isto é, à parte das faculdades racionais. Dentre as funções psicológicas, a responsável pelo acesso a essa atividade reguladora inconsciente é a intuição. Jung define-a da seguinte maneira, em Tipos Psicológicos:

É a função psicológica que transmite a percepção por via inconsciente. Tudo pode ser objeto dessa percepção, coisas internas ou externas e suas relações. O específico da intuição é que ela não é sensação dos sentidos, nem sentimento e nem conclusão intelectual, ainda que possa aparecer também sob essas formas. Na intuição, qualquer conteúdo se apresenta como um todo acabado sem que saibamos explicar ou descobrir como este conteúdo chegou a existir. ( ... ) Como na sensação, seus conteúdos têm caráter de dados, em oposição ao caráter de derivado, produzido dos conteúdos do sentimento e do pensamento. Daí provém seu caráter de certeza e exatidão que levou Spinoza a considerar a scientia intuitiva como a forma mais elevada de conhecimento?. [ Jung acrescenta em nota de rodapé referente a essa última afirmação: ?Igualmente BErgson?] (Jung, 1991; parágrafo (§) 865, nota 62).

Talvez possamos afirmar que o papel da intuição, como função psicológica, seja o de, progressivamente, explicitar os insights provenientes do Self enquanto centro ordenador da psique. Trata-se, portanto, de um pensamento subterrâneo, mais abrangente, compreensivo, inclusivo que o pensamento racional ou intelectual e ao qual, aliás, se acede a duras penas (como diz Jung: Não se chega à consciência psicológica sem dor).

Talvez aqui trate-se da mesma questão em Deleuze (ainda que os pressupostos teóricos e o resultado especulativo sejam profundamente divergentes): a gênese do pensamento no interior do próprio pensamento. Para ambos o pensamento enquanto tal (em Jung: enquanto produto vivo da individuação), não é uma faculdade da razão mas precisa ser forçado e o é na vida que é posta à prova. De qualquer maneira, o que nos interessa, de início, é colocar essa idéia do Self como uma cosmovisão orientadora do percurso existencial. Esse percurso, que não é pré-determinado e se desenvolve de modo fluido, de maneira imprevisível, resulta do grau de cooperação entre um executor ou agente, o sujeito consciente, e um coordenador ou orientador que seria o Self. Quer dizer, a orientação do percurso ou processo é simultânea à sua realização e depende de como esta se dá.

lipão/fê escreveu às 10:02:00 AM -


MOKA, 24 ANOS, DJ, BARMAN E WEBDESIGNER. VIVE EM SÃO PAULO E AGORA TRABALHA!.

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LIPE, 24 ANOS, MUSICOTERAPEUTA, VIVE EM SÃO PAULO E TRABALHA COMO TERAPEUTA.

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