O trabalho do analista, sua tarefa em estrita aliança com o ?paciente? tem como objetivo mais geral, justamente, ajudá-lo a conquistar a autonomia na condução de seu próprio processo. Temos aqui uma interessante analogia, segundo nos parece, na ?Divina Comédia?, de Dante, onde, no percurso através do Inferno e do Purgatório, o peregrino é conduzido pela figura de um ?mestre?, personificado pelo poeta Virgílio, uma espécie de guia, instrutor e protetor, que no entanto é dispensado quando do encontro com a Amada, Beatriz, personagem de cunho nitidamente espiritual e que doravante conduzirá o peregrino pelas camadas do Céu, cada vez mais próximo da Luz.
Ora, o inconsciente, para Jung, atua através do que ele define como arquétipos, isto é, focalizando imagens coletivas que estão na base da formação de todo e qualquer indivíduo e que se desenvolvem, se modificam e se transformam ao longo da vida. Tais como o Masculino, o Feminino, a Velhice e a Infância, como experiência pessoal e através dos indivíduos (homens, mulheres, crianças e idosos) contatados no decorrer da existência. Assim, essas imagens arquetípicas (fundamentais, coletivas, universais) atuam no elemento da singularidade pessoal, desenvolvendo-se em tons únicos, para cada existência. Por isso, o inconsciente é dito por Jung simultaneamente ?pessoal? e ?coletivo?.
Mas, ao que parece, segundo ressaltou Jung, notadamente pelo que se depreende de seu estudo dos sonhos, a liberação dos conteúdos inconscientes depende de sua compreensão e elaboração por parte da consciência. Digamos que a primeira meta do Self é que a consciência compreenda as suas ?comunicações?. Em seguida, faz-se necessário que a pessoa as utilize em termos pragmáticos, ou seja, numa ação correspondente, redimensionando-se existencialmente conforme sua compreensão do que foi apreendido. É óbvio que nos esforçamos em exprimir o inexprimível, uma vez que o inconsciente não é apenas uma atividade semiótica ou expressiva, mas também energia e criatividade. E nesse sentido, será capaz de prover a energia necessária ao desencadeamento das mudanças.Em contrapartida, a função reguladora do inconsciente, o Self, parece responder às demandas da vida objetiva, aos problemas que se colocam no decurso do processo de individuação e que se exprimem também, é claro, através de dados da existência concreta relativos à compreensão consciente, aos objetivos pessoais e aos desejos de mudança. O que, remetendo ao plano da clínica, significa que a interpretação, no caso a mediação entre os conteúdos ou imagens simbólicas provenientes da psique inconsciente e os dados ou expressões da vida ?objetiva?, condiciona a produção inconsciente.
lipão/fê escreveu às
10:06:00 AM -