D. Juan nomeia esses dois tipos de tonal: o ?tonal rígido?, do homem comum e o ?tonal fluido?, do ?homem de conhecimento?. Esse duplo aspecto é levado em conta por Jung ao trabalhar, no plano analítico, o conceito de persona.
O tonal rígido é o homem que confunde a persona com sua própria essência, ou seja, que ?acredita no seu personagem?, que confunde a identidade pessoal com uma certa imagem ideal (social ou mítica). Por exemplo, aquele que é médico ou militar, que age como tal em todos os momentos da vida. Ou (tolice suprema nas hostes junguianas) acreditar que encarar a ?essência do masculino? ou pior, o ?arquétipo do homem? é ?agir como herói?; ou, por outro lado, que o suposto ?arquétipo feminino? ou ?essência da mulher? seja agir como a ?donzela presa na masmorra do castelo?; ou ainda ?incorporar? o deus ou a deusa tal ou qual. Isto significa avaliar de modo superficial o valor clínico da noção de arquétipo, negligenciando seu pólo singular, isto é, a maneira peculiar como se atualiza em cada processo de individuação. Em suma: confundir arquétipo com estereótipo, ?modelo de comportamento?. É o que o próprio Jung denomina ?identificação com a persona? (popularmente chamado: ?fazer um tipo? ou ?ser possuído pelo personagem?), como situação limitadora, contrária à ?individuação?. Quando Jung escreve, no início de ?Símbolos de transformação?, em se ?viver o mito pessoal?, não está falando que se deva representar um personagem mitológico, reproduzir um certo padrão de comportamento heróico. Muito ao contrário, trata-se de dar vazão à singularidade latente que corresponde ao que é denominado ?individuação?. Os mitos heróicos, aliás, são relatos simbólicos (literários, religiosos, mitológicos, folclóricos), poderíamos dizer, ?protocolos de experiências? alusivos, deixados em todas as épocas e por toda parte, referentes a transformações espirituais individuais e coletivas. Nos quais pessoas ou grupos (coletividades) passam por situações em que tudo o que tinham como mais certo e seguro se desfaz completamente (é nesse sentido que o espiritual se confunde com o psicológico, através da experiência numinosa). Convicções, sentimentos, maneiras de ver e avaliar, agir e reagir, tudo se modifica e se depura, às custas de muito sacrifício. E o que daí advém é algo de inteiramente novo.
Quanto ao ?tonal fluido?, corresponde, por sua vez, ao apagamento progressivo das fronteiras restritivas do ego pessoal, a partir da trajetória processual sugerida pelo Self como função reguladora da psique, o que leva a pessoa a alargar seus limites e, num certo sentido, realizar um movimento existencial de extroversão, quer dizer, desprender-se de si mesmo, desapegar-se das coisas queridas, despreocupar-se consigo mesmo e de uma maneira especial, ?voltar-se para fora?. (O que não deve ser confundido com uma ?auto-renúncia?, presente, aliás, na posição anterior, de identificação com a persona). A persona deixa de ser um ?fim? (identidade pessoal) e passa a ser um ?meio? (modus operandi ou meio de relação).
lipão/fê escreveu às
4:28:00 PM -