Clínica e Individuação.
Há, se considerarmos uma certa perspectiva, uma semelhança entre a função do analista e a do pajé ou xamã das sociedades ?primitivas?: ?expulsar os maus espíritos?. Ocorre que, no caso do analista, os maus espíritos mudaram de nome, passaram a chamar-se neurose, histeria, depressão, mania, paranóia, esquizofrenia... E o espaço de tratamento passou a ser fechado (consultório ou ?setting analítico?), ao passo que, para o feiticeiro, o tratamento, em geral, constitui-se de uma série de procedimentos de verificação e busca por todo o campo social. O xamã, pajé ou feiticeiro deve percorrer todo o campo social para curar uma simples dor de dente que seja. Não há esferas independentes no espaço social, tudo se acha co-implicado
As lições do índio D. Juan, na obra de Castaneda, geralmente se iniciam com um convite para uma caminhada, durante a qual o jovem aprendiz deverá ser testado ao ser posto à mercê dos ?poderes que regem o mundo e nossas vidas?. Trata-se de uma espécie de análise pragmática ou peripatética.
Jung comenta que o chamado processo de individuação leva potencialmente o indivíduo a distanciar-se, progressivamente, do homem médio (de sua visão do mundo, posições, opiniões). Trata-se, por conseguinte, de um movimento de singularização em que o indivíduo vai rompendo com as fronteiras restritivas da persona (quer dizer, com os elementos da personalidade retirados do senso comum e atuando semi-conscientemente ou inconscientemente). Conseqüentemente o inconsciente deixa de determinar exclusivamente o âmbito pessoal e passa a abrir-se para o social, para a coletividade, deslocando, com isso, o eixo de interesses do indivíduo e gerando uma preocupação e uma ação correspondentes. Algum tipo de envolvimento em questões coletivas começa a despontar (é interessante, por exemplo, acompanhar o devir revolucionário do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, como líder do Movimento contra a fome e pela cidadania e no desfecho de sua vida, sua confrontação com a morte, desencadeando um desassombro absoluto e um júbilo vital, direcionado para um problema eminentemente social).
lipão/fê escreveu às
1:59:00 PM -