...É que o desenrolar do processo de individuação, a partir de um certo limiar ou numa certa etapa, gera uma certa sensibilidade às transformações coletivas em curso (políticas, sociais, espirituais etc.). Como diz Nise da Silveira, em seu livro sobre Jung, acerca do processo de individuação: Vindo a ser o indivíduo que é de fato, o homem não se torna egoísta, no sentido ordinário da palavra, mas está meramente realizando as particularidades de sua natureza e isso é enormemente diferente de egoísmo ou individualismo?. (Silveira, 1994, p. 92 / 93).
Portanto, é nesse sentido que podemos dizer que a individuação leva a um estreitamento da relação com os conteúdos coletivos do inconsciente e concomitantemente, a um progressivo apagamento dos interesses e apegos pessoais (de modo algum neurótica ou patologicamente, mas segundo um desdobramento natural e irreversível). Segundo essa perspectiva, a realização do inconsciente de modo total, revelando o próprio arquétipo humano em sua consecução, afirma Jung, teria sido realizada por Cristo (Ver Cristo como arquétipo em Aion ? Estudos sobre o simbolismo do Si-Mesmo).
Mas o que seria, inicialmente, a personalidade comum ou homem médio? Para elucidar este ponto, vamos comparar a categoria de persona, em Jung, à noção de tonal, que aparece na obra de Castaneda. O índio D. Juan define esse termo, literalmente, como a pessoa social. Vejamos, na íntegra:
Agora estou usando as suas palavras, o tonal é a pessoa social. (...) ? O tonal é, de direito, um protetor, um guardião; um guardião que geralmente se transforma num guarda. (...) ? O tonal é o organizador do mundo.
Talvez o melhor meio de descrever seu trabalho monumental seja dizer que sobre seus ombros repousa o trabalho de dar ordem ao caos do mundo. Não é exagero afirmar, como fazem os feiticeiros, que tudo quanto sabemos e fazemos como homens é obra do tonal. Neste momento, por exemplo, aquilo que está empenhado em fazer sentido desta conversa é o seu tonal; sem ele só haveria sons estranhos e caretas e você nada compreenderia do que estou falando. Eu diria então que o tonal é um guardião que protege algo de precioso, o nosso próprio ser. Portanto, uma qualidade inerente ao tonal é ser astucioso e zeloso do que faz. E como seus atos são, de longe, a parte mais importante de nossas vidas, não admira que, no fim, ele se transforme, em todos nós, de guardião em guarda. (...) Um guardião tem vistas largas e é compreensivo. Um guarda, ao contrário, é vigilante, intolerante e a maior parte do tempo, despótico. Digo, pois, que o tonal em todos nós foi transformado num guarda mesquinho e despótico, quando deveria ser um guardião de larga visão.?
lipão/fê escreveu às
5:26:00 PM -