Nosso mundo associa ter informação, deter conhecimento, com poder. No meio comunicacional, principalmente, poder de fogo da mídia é o poder de conseguir e dar a informação em primeiro lugar, da forma mais mobilizadora e contundente possível. Nos embates políticos, a "verdade" a ser dita por uns é sempre a temível ameaça destrutiva de exposição do "segredo" de outros. Nas organizações, é construído todo um sistema de segurança e de vigilância em torno do saber e da informação, garantia sempre preservada de toda aspiração monopolista. Na academia, o saber muitas vezes torna-se propriedade de alguns, porque ele hierarquiza e dá legitimidade àquele que acumula títulos, autorizando-o até mesmo a desqualificar o que não porta título algum, mesmo quando o conhecimento que este expõe autorize seu reconhecimento. Raros são os que, à revelia dos lugares ocupados, compartilham seu conhecimento, que compõem com o outro suas relações. Com isso, o mais das vezes, a identidade poder e saber acaba por conferir ao conhecimento a mesma forma estéril do orgulho narcísico daquele que o detém.
Entretanto, o conhecimento, o verdadeiro conhecimento, insiste Espinosa, faz parte das relações, pertence ao mundo afetivo dos encontros de corpos (humanos e não-humanos), e não a esse mundo das representações que, ainda que lhe seja necessário, não constitui sua condição19. Por essa razão, se pudéssemos conhecer livremente em nossos encontros, diz Deleuze, não precisaríamos dos signos ou da transcendência da idéia sobre o corpo e suas afetações e, muito menos, da hierarquia das representações.
Compreende-se, portanto, o "risco" de uma inteligência coletiva, de uma multitudo organizada a partir de sua potência produtiva, em um amoroso compartilhamento do que cada um sabe e pode ensinar e aprender com o outro, como sonha Lévy com o ciberespaço e como pensou Espinosa com sua filosofia da liberdade na efervescente e selvagem Holanda do século XVII. Num mundo como esse, des-hierarquizado e virtualizado pela técnica - no qual o desejo não seria uma falta a realizar, mas pura força de produção de real social; o acontecimento, não um espetáculo a noticiar, mas a experiência de um mundo vivível; a ação política, não o exercício de alguns, mas sim forma privilegiada de participação de todos na vida da cidade -, o poder e suas lutas não passariam de um falso problema, um problema que ocuparia somente os homens tristes.
Ao pensarmos sobre mídia e política hoje, o primeiro impasse que se apresenta é, portanto, o do próprio sistema de representação e suas formas de legitimação do poder.
lipão/fê escreveu às
10:32:00 AM -