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Segunda-feira, Março 06, 2006

Atenção a cada tentativa

As discussões a esse respeito são ético-políticas, entendendo-se a idéia de política como "elevado momento da ética", momento que, para Deleuze, como diz Toni Negri, "é a capacidade de afirmar a singularidade enquanto absoluta" . Essas discussões parecem mobilizar justamente idéias capazes de suscitar uma apreciação crítica das combinações entre eles. Porém, tais combinações entre esses incontroláveis não decorrem necessariamente das idéias. Assim, a variação de intensidade e os variados graus de atenção crítica, de cautela, prudência, arrojos, criatividade etc., são, eles próprios, partícipes dos agenciamentos em que tudo isso ocorre. Aí está a razão pela qual, não podendo apelar para um critério transcendente, a avaliação das ações teóricas e práticas desencadeadas em face de problemas criados ou vindos à pauta há de ser sempre retomada, como diz Deleuze, "no nível de cada tentativa". Ao dizer que se trata de avaliar cada tentativa em sua "capacidade de resistência ou, ao contrário, sua submissão a um controle", o que Deleuze está valorizando, precisamente, é um novo tipo de relação com o "mundo", mundo do qual nos "desapossaram", diz ele. Em que consiste esse novo tipo de relação com o mundo? Não me parece que Deleuze propenda a uma crença mística ao retomar o problema do liame com o mundo . Penso, ao contrário, que ele é incisivo a esse respeito: "Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos". É isso que ele diz ao responder a uma pergunta de Toni Negri sobre a possibilidade de uma "política" que ressoe o "esplendor do acontecimento e da subjetividade". O que talvez não se deva fazer é fixar abstratamente a idéia de controle. É certo que Deleuze insiste na caracterização do novo, dos devires, das linhas de fuga como aquilo que escapa ao controle. Mas é preciso levar também em conta que os dispositivos de controle, dos quais esses fluxos estão escapando, são muitas vezes aqueles pensáveis do ponto de vista de sua imediata funcionalidade em relação ao que é decisivo na estratégia de produção dominante, ao que é decisivo, portanto, nas engrenagens que nos subtraem o mundo. Ainda respondendo a Toni Negri, a propósito do problema da retomada da palavra pelas minorias, eis uma passagem que pode ser pensada nesse sentido: "Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle" . Por outro lado, é possível conceber e encontrar por aí atos de controle mobilizados em lutas destinadas a liberar forças de expansão ecológica da existência e a controlar forças reativas. Em suma, há os mais imprevisíveis jogos entre o liberar e o controlar.
É que a cada tentativa correspondem problemas vindos à pauta da existência. Eles impõem aos agentes e pacientes inesperadas redistribuições de ímpetos e cautelas, de atenções e devaneios, de vida e morte, de alegrias e tristezas, de ação ou inércia. E cada problema envolve-se com outro em intersecções que multiplicam as surpresas no campo problemático inteiro. É a essa realidade que certos movimentos parecem estar hoje atentos: eles compõem interferências que pendulam entre liberações e controles em correspondência com os problemas que eles precisam gritar e fazer valer na vastidão do plano de imanência. Os combates que se dão nesse plano substituem as perguntas caudatárias de um modelo por aquelas, nietzschianas, que vasculham o circunstancial, o acontecimental, o ocasional: quem?, o que?, onde?, por quais meios?, por que?, como?, quando? O que essas perguntas pedem não é o idêntico. Elas acabam por identificar, sim, mas identificam os diferenciais de alianças e dissensões no combate. Elas imanentizam o essencial. É em face delas, a cada instante e a cada tentativa que retorna a pergunta de difícil resposta: que estou ajudando a fazer de mim mesmo?

lipão/fê escreveu às 11:37:00 AM -


MOKA, 24 ANOS, DJ, BARMAN E WEBDESIGNER. VIVE EM SÃO PAULO E AGORA TRABALHA!.

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LIPE, 24 ANOS, MUSICOTERAPEUTA, VIVE EM SÃO PAULO E TRABALHA COMO TERAPEUTA.

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