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Sexta-feira, Março 03, 2006

Que estamos ajudando a fazer de nós mesmos?

Nota 9: do ato universalmente decisivo às ações particularmente incisivas.

Foi dito que as dobras de toda essa complexa dramaticidade implicam processos de saber, de poder e de subjetivação, ao longo dos quais elas ressoam multiplamente, como se coexistissem em estado de contaminações recíprocas. Em certo momento da história dessa complexidade, tornou-se evidente que já não se podia confluir a pluralidade das lutas, de modo a subordiná-las ao que seria o projeto ou o ato de um sujeito coletivo postulado como capaz de subverter o próprio modo capitalista de produção. Por várias razões, dentre as quais não é irrisória a perda de sua fundamentalidade operatória nos processos de produção, a chamada classe operária, à qual se atribuía de fora o papel de possível redentor da humanidade na luta pelo fim da exploração do homem pelo homem, foi exibindo sua cada vez mais dilacerante realidade empírica, a realidade de um diverso incapaz de imantar-se como vanguarda de um hipotético sujeito coletivo de emancipação. Abalou-se o modelo em função do qual se podia identificar a maior ou menor qualidade revolucionária de alguém. O ato revolucionário por excelência, o ato universalmente decisivo na subversão do modo de produção, foi se transformando, de um lado, em lutas sindicais as mais variadas, e, de outro, em generosidades, em artes ditas engajadas, em discursos críticos ou em fraseologias ideológicas e burocráticas, até restar como nebulosa expectativa, finalmente esfriada em prateleiras de arquivos de história social, arquivos em meio aos quais pesquisadores e pesquisadoras procuram expressar os rastros de emoções libertárias.
A gradativa corrosão do projeto de confluência das lutas locais para o domínio dos que postulavam um sujeito coletivo, do qual a classe operária seria o ponto de aplicação principal, foi cedendo lugar à viabilização das chamadas lutas particulares, também elas caudatárias de um modelo onde cada categoria estivesse fundada na virtude de uma identidade: luta das mulheres, dos negros, dos homossexuais etc. Da expectativa do ato universalmente decisivo passou-se à efetuação de ações particularmente incisivas, com seu acumulado de vitórias, derrotas, rivalidades entre grupelhos de mulheres deste ou daquele naipe, de negros assim ou assado, de homossexuais de tal ou qual tipo etc. Tanto os participantes desses embates particulares quanto seus pesquisadores sabem perfeitamente que a importância deles neste ou naquele momento independe da inútil e teoricamente inconsistente identificação do agente em luta. Conhecem as limitações da insistência em agrupar-se como semelhantes em função deste ou daquele atributo identificador. Conhecem até mesmo o absurdo de se tentar aprisionar as diferenças em categorias, tornando uma diferença despótica em relação às demais. O aspecto positivo, porém, é que acabaram ou acabarão descobrindo que o mais importante, além da necessária agitação em cada territorialidade, em cada agenciamento de esforços, é o estabelecimento de alianças transversais, como diria Guattari, em acontecimentos capazes de febricitar devires democráticos ali onde o ranço identitário teima em cavar a toca das toupeiras. Mas é preciso estar sempre atento, pois certas "unanimidades transversais", como alerta Giuseppe Cocco, podem reunir agentes de distintas posições políticas e intelectuais sob a égide um transcendente chamado Estado, Nação etc. . Alguém poderia dizer-me: se não tenho cão, preciso caçar com gato, isto é, se não posso enfrentar a serpente incontrolável, só me resta cavar a toca e lutar como toupeira, construir meu próprio núcleo, por exemplo, mesmo correndo o risco de praticar anacrônicos atos disciplinares e até de selecionar convidados para um colóquio com base em troca de favores ou em obscuros ressentimentos, e tudo isso contaminado por um exclusivismo que mal esconde o hálito identificatório.
Aí está, reencontramos a dificuldade. Como nem todos podem ou querem girar em torno de sua própria toca, resta-lhes serpentear, retomando a pergunta: que posso fazer com a serpente, que posso fazer com o incontrolável que potencializa, desmesurando-os, os dispositivos de controle que me capturam? No âmago dessa pergunta, reitera-se a legenda deste colóquio: que estou ajudando a fazer de mim mesmo?

lipão/fê escreveu às 10:26:00 AM -


MOKA, 24 ANOS, DJ, BARMAN E WEBDESIGNER. VIVE EM SÃO PAULO E AGORA TRABALHA!.

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LIPE, 24 ANOS, MUSICOTERAPEUTA, VIVE EM SÃO PAULO E TRABALHA COMO TERAPEUTA.

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