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Segunda-feira, Março 20, 2006

Poder (Im)potencia da mídia

Poder

Nas considerações feitas até o momento sobre a mídia televisiva e as representações políticas, poder e potência, quando surgiram, foram trabalhados deliberadamente como indissociáveis, pois é assim que eles são representados pelo senso comum (mas não só), justificando que se tome como verdadeira a afirmação de que o que todos desejamos, ou devemos desejar, é o poder, quaisquer que sejam nossas escolhas políticas, nossa posição social ou nossas condições de existência, por ser através dele que efetuamos nossa potência. Dos grandes - o poder das elites, o poder do Estado, o poder da mídia, o poder das massas - aos pequenos poderes - dos pais sobre os filhos, do patrão sobre o empregado, do professor sobre o aluno, do homem sobre a mulher e as crianças, da "pessoa" sobre o indivíduo -, assim como o poder dizer, o poder persuadir, o poder seduzir, o poder fazer, o poder consumir, é sempre em torno dessas duas instâncias, poder e potência, que, segundo essa ótica de indissociabilidade e subordinação, são travadas todas as lutas em que nos envolvemos em nossas trajetórias de vida. Nas disputas por cargos políticos, por exemplo, é isso que não cessa de ser reiterado e confirmado por cada candidato em suas estratégias para conquistar o voto do eleitor: conheceremos toda sua potência de realização tão logo o autorizemos no lugar de poder que ele reivindica ocupar. Uma potência, importante frisar, que é afirmada como sendo dele enquanto personagem, mas não, salvo raramente, do coletivo que faria dele o legítimo representante de suas aspirações e interesses, autorizando-o, pelo voto, a agir em seu nome.

Ainda sob tal concepção, é mais livre aquele que detém algum poder do que aquele que não tem poder nenhum. Não queremos ser governados, mas sim governar, já nos indicava Espinosa, e se nos sujeitamos a determinadas ordens, o fazemos sob o efeito de múltiplos dispositivos institucionais, políticos e jurídicos que, mais fortes do que nós, nos inscrevem sob as leis de um país, de uma instituição, de uma organização, de uma religião, as quais somos incitados a aceitar para que possamos garantir algumas prerrogativas que nos permitam exercer, ainda que relativamente, nossa liberdade e nossa potência. Sendo essa uma decisão racional, é mais livre aquele que faz racionalmente e pela própria vontade suas escolhas do que um outro que as faz emocionalmente. Tal é a idéia do livre-arbítrio: dados determinados caminhos, somos livres para escolher, pela via raciocinante, aquele que nos é mais conveniente, isto é, aquele que produzirá nosso Bem.

A obediência àquilo que nos vem do exterior, entretanto, é menos uma escolha que se faz livremente, e mais uma determinação à qual estamos obrigados a ceder, por serem as forças externas mais fortes que nós, de forma que possamos ter os meios para perseverar na existência, isto é, exercer nossa potência de agir e de pensar. Por estarmos obrigados a ela, com ou sem nosso consentimento, sempre que possível, procuramos escapar aos seus limites. Transgredir uma lei ou uma ordem é uma forma, mesmo que muitas vezes canhestra ou deletéria, de exercitar a liberdade; afinal, não há lei que não contenha em si a possibilidade de sua transgressão. Por essa razão, uma das tarefas dos dispositivos de poder é tanto assegurar a obediência como criar algumas linhas de fuga a suas forças. Sob determinados filtros que permitam a sustentação de seu controle, oferecem-se algumas liberdades de forma a evitar a violência da transgressão disruptiva - que desestabilizaria as relações de força que sustentam o poder -, liberdades essas que tornam não só a obediência suportável como nos levam a desejar o poder que nos sujeita.

Para o trabalhador, por exemplo, submetido à rotina cotidiana das mesmas e repetitivas atividades, recebendo por elas quase sempre baixos salários, são oferecidos prêmios ou promoções pelo bom desempenho, além de períodos de descanso, lazer e entretenimento que se intercalam com o tempo dedicado ao trabalho. Que esses períodos de repouso sejam um momento de descompromisso, que sejam ocupados de forma prazerosa, que sirvam para a renovação das forças que serão reinvestidas, ao retornar, na lide do trabalho, essas são a expectativa e a recomendação sobre o bom uso do tempo livre. É para esse "bom uso" que uma poderosa indústria de entretenimento e lazer é colocada à sua disposição.

Além disso, se somos levados à obediência em relação às nossas atividades produtivas ou às regras da comunidade à qual pertencemos, sempre nos resta, dependendo de quanto ganhamos com essas nossas atividades, a liberdade de dispormos de parte desse ganho no consumo de bens, objetos e serviços. Se há, em nossa sociedade, uma liberdade comum a todos, cuja única restrição está na quantidade de moeda que cada um dispõe para gastar, é a do consumo. Inevitavelmente, em um mundo subsumido como mercado, é no consumo que encontramos, todos, uma das ocasiões privilegiadas de expressarmos nossa potência, por ser o poder de compra que nos coloca, em progressão ascendente, na via da realização das felicidades que nos são ofertadas para a expressão de nossa potência e liberdade de agir e existir enquanto fruidores daquilo que o mundo-mercado nos oferece. No lugar das necessidades, os desejos, esse é o irresistível artifício que nos captura e ao qual aderimos sem resistência.

lipão/fê escreveu às 10:40:00 AM -


MOKA, 24 ANOS, DJ, BARMAN E WEBDESIGNER. VIVE EM SÃO PAULO E AGORA TRABALHA!.

EMAIL: brunomoka@ig.com.br


LIPE, 24 ANOS, MUSICOTERAPEUTA, VIVE EM SÃO PAULO E TRABALHA COMO TERAPEUTA.

EMAIL: felipeak81@yahoo.com.br



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