Existem, paralelas à do consumo, sem deixar de estar a ele ligadas, outras felicidades e liberdades que podemos realizar. Na vida privada, temos, a princípio, a liberdade de amar e escolher livremente nossos parceiros amorosos e sexuais. Podemos mesmo dizer que, de todas as potências humanas, poucas são mais valorizadas do que a sexual. Não à toa, é para as inquietações sobre a potência e o bom desempenho sexual que, de acordo com os discursos correntes, confluem todas as demais, mesmo quando falamos do poder político, do poder econômico, do poder de domínio, do poder de produzir ou de consumir. Se nada é mais triste para um homem de poder que se descobrir impotente, por ser aí que ele encontra, do poder, sua vacuidade, aquele que não detém nenhum poder busca realizar sua potência quase toda nas alegrias de sua vida sexual. Se ele a tem minada ou restringida, sua infelicidade torna-se insuportável, sua auto-estima se anula e amargura sua vida a ponto de marcá-lo como indelevelmente fracassado. Para atendê-lo, uma também poderosa indústria voltada para as alegrias e prazeres do sexo, que se alternam com as representações da potência indissociada e subordinada ao poder, é posta à disposição de seu imaginário, permitindo-lhe realizar, ainda que vicariamente, o que fica subtraído à experiência vivida. Em suas imagens, reafirma-se que é do prestígio que temos como seres de poder que emana nossa atratividade e nossa potência, assegurando a cada um a certeza de si necessária para propor-se (ou impor-se) aos demais como objeto de amor e de admiração. Na moderna sociedade midiática, centrada na visibilização das figuras de prestígio (que freqüentemente centram sua realização no sexual), é isso que não cessa de ser reiterado cotidianamente. A disputa pela presença na mídia, em particular a televisiva, que é estimulada pelos programas populares de auditório e pelos reality shows, nos indica o quanto celebridades e anônimos os mais diversos procuram "contaminar-se" do poder da mídia como estratégia de auto-potencialização e realização. Não à toa, também nossos políticos disputam espaço nesses programas (como na festejada e profusamente divulgada participação de alguns reelegíveis no Show do Milhão de Sílvio Santos, no final de 2001, que resultou num verdadeiro ensaio de prévia eleitoral).
Tais são as liberdades e matérias de expressão com que contamos para nos situarmos enquanto participantes do espaço público midiático, sendo com elas que se produzem os ideais de bem-estar que condicionam nossa existência. Se estar presente na mídia corresponde ainda ao anseio de fazer-se ouvir, de dar materialidade à própria voz, rapidamente se apreende que a própria voz dificilmente encontrará espaço no conjunto das outras vozes se não se ocupar minimamente esse lugar de prestígio como pessoa que é, a cada um, antecipado. O que temos aqui reafirmada é ainda e novamente a indissociabilidade e subordinação poder-potência, construtora de uma liberdade que se mostra, a um olhar mais acurado, bastante restrita. Provavelmente por essa razão, as lutas das minorias pela expressão e legitimação de suas vozes, que até os anos 80 mostravam-se politicamente intensas, recuaram expressivamente a partir dos anos 90, momento em que, aos discursos sobre a democrática convivência da multiplicidade de vozes no mundo sem fronteiras da globalização, sobrepôs-se a uniformidade politicamente correta dos discursos das belas almas sobre a aceitação das diferenças por redução ao idêntico. Poderíamos pensar que parte das forças investidas nas lutas pela expressão política e cultural, ao serem desintensificadas e descodificadas por esses discursos, tenham revertido para a mais imediata, destrutiva e crescente violência que se presentifica atualmente no espaço urbano. Para alimentá-las, não faltam "pegadinhas", "videocacetadas" e inúteis competições promovidas pelos reality shows televisivos. Além, claro, das imagens de corrupção, quase sempre impune, que aprendemos a reconhecer associadas à classe política e a alguns representantes das elites econômicas.
Como podemos ver, o poder é, assim, em todos os sentidos, parte de um mundo representativo, sendo sua espetacularização a forma privilegiada de reconhecimento da potência em sua exterioridade. Uma espetacularização que faz dele uma alegria e um prazer, por menor que seja o poder de que um personagem qualquer esteja investido.
lipão/fê escreveu às
10:04:00 AM -