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Segunda-feira, Março 27, 2006

Potência

Foram destacadas, até o momento, as alegrias disponíveis àqueles que são, de uma maneira ou outra, governados, alegrias essas bastante privilegiadas pela mídia televisiva. A elas somam-se e se sobrepõem as alegrias das celebridades-pessoas e seu poder, seja ele político, econômico, artístico... Entretanto, em seu Tratado teológico-político, indica-nos Deleuze , Espinosa coloca-nos um problema ético e político fundamental: por que razão aquele que tem o poder, em qualquer domínio, tem, ao mesmo tempo, a necessidade de afetar de tristeza aqueles que mantém sob suas ordens? Para o exercício do poder, nos diz Espinosa, a tristeza é necessária, pois para governar, para sujeitar aquele que se deseja ter sob domínio, é necessário inspirar nele paixões tristes.

Para compreendermos a radicalidade dessa afirmação do filósofo, é necessário que tomemos tristeza não em seu sentido vago, mas com o rigor que ele confere a esse afeto. Para Espinosa, a tristeza é o afeto que envolve a diminuição da potência de atuar e da força de existir de um corpo, e a alegria o que envolve seu aumento. Ora, a essência do homem é sua potência de agir, pensar e existir em ato, pois é assim que ele persevera em sua existência. Uma essência que não remete ao que se é, mas ao que se pode. Assim, contrariamente ao que foi dito até o momento, a efetuação de sua potência é tudo o que pode um corpo, sendo o afeto, em sua variação contínua, essa efetuação, tristeza quando a potência é diminuída, alegria quando é aumentada. Espinosa desfaz, com isso, o argumento de que é o poder o que todos queremos ou devemos querer, por ser através dele que efetuaríamos nossa potência, pois, contrariamente, o poder é sempre de efetuação da potência, não sua condição. Assim, afirmar que o poder é condição da potência, de sua perspectiva, seria uma grande bobagem, o que não impede que os homens se engalfinhem em uma luta incessante e feroz pelo poder, a um ponto tal que não saberiam existir se não tivessem a quem ou a que comandar e fazer obedecer. É nesse sentido que o poder faz parte de um mundo representativo, ao qual pertence também o mundo dos signos e da linguagem, com sua força imperativa de ordem, de mandato, de agenciamento do fazer-fazer. A potência, ao contrário, não é representativa, não é vontade de algo, é tão somente o que pode um corpo, pertencendo assim às relações, e se expressa, diminuída ou aumentada, nos afetos que a efetuam no encontro de corpos (humanos e não-humanos, já que todas as coisas que existem são corpos, cada uma com sua própria potência). Assim, quando Espinosa fala de potência e de afetos, isto é, de aumento ou diminuição de potência, ou quando Nietzsche fala de vontade de potência, o que ambos têm em mente não diz respeito à conquista de um poder qualquer. Eles diriam que o único poder é, afinal, a potência. Diz Deleuze: "A saber: aumentar sua potência é precisamente compor relações tais que a coisa e eu, que compomos relações, só somos duas sub-individualidades de um novo indivíduo formidável"16. Dessa forma, quando dois corpos se compõem em suas relações um com o outro, há aumento de potência de ambos, quando um corpo descompõe o outro em suas relações, há diminuição de potência deste último. Compreende-se, assim, porque aquele que detém o poder precisa da tristeza do outro, isto é, da diminuição de sua potência, para compor suas próprias relações.

Se compreendermos isso, compreenderemos também a razão da transformação da vida e dos acontecimentos do mundo em espetáculo investida pela mídia televisiva, principal acesso às riquezas e acontecimentos do mundo de boa parte da população: perante homens tristes, que têm suas relações descompostas no jogo de forças, todos os esforços para arrebatá-los de sua tristeza, de emocioná-los propondo a eles alegrias substitutivas, essas alegrias do outro que se empenham em animá-lo, jamais serão vãos.

Mais uma observação, antes de caminharmos para uma finalização provisória deste texto. Espinosa chama de amor a alegria das relações que se compõem, e de ódio a tristeza das relações que não se compõem. O ódio é a alegria do homem triste, uma alegria indireta, substitutiva, que se alegra da descomposição das relações de todo e qualquer outro corpo que diminua, ou possa vir a diminuir, real ou imaginariamente, sua potência18.

A alegria substitutiva extraída da tristeza é sempre ressentida, não sendo capaz de sincera admiração pelas realizações de um outro e, muito menos, de solidariedade. Esse é o afeto de toda situação de dominação, de toda concorrência desmedida, sendo seu principal vetor a violência de uns contra os outros. Daí a conclusão de Espinosa de que devemos temer os homens tristes, pois são muito perigosos. São eles que, impotentes, precisam dos poderes e de sua hierarquia para efetuar sua potência. Para essa efetuação, todos os meios lhes são válidos.

lipão/fê escreveu às 5:42:00 PM -


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