Para Guattari, a ecosofia social consiste em desenvolver práticas específicas que tendam a modificar e a reinventar maneiras de ser no seio do casal, da família, do contexto urbano, do trabalho etc. "A questão será literalmente reconstruir o conjunto das modalidades do ser-em-grupo". Não somente pelas intervenções ?comunicacionais? mas principalmente por "mutações existenciais que dizem respeito à essência da subjetividade". Não se atendo às recomendações gerais, mas fazendo "funcionar práticas efetivas de experimentação tanto nos níveis microssociais quanto em escalas institucionais maiores".
Tecendo uma crítica ao sistema capitalista global, de modo inclusivo, ao mesmo tempo lúcido do poder que tem sobre a subjetividade, Guattari é ousado "A ecologia social deverá trabalhar na reconstrução das relações humanas em todos os níveis do socius. Ela jamais deverá perder de vista que o poder capitalista se deslocou, se desterritorializou, ao mesmo tempo em extensão ? ampliando seu domínio sobre o conjunto da vida social, econômica e cultural do planeta ? e em ?intenção? ? infiltrando-se no seio dos mais inconscientes estratos subjetivos. Assim sendo, não é possível pretender se opor a ele apenas de fora, através de práticas sindicais e políticas tradicionais. Tornou-se igualmente imperativo encarar seus efeitos no domínio da ecologia mental, no seio da vida cotidiana individual, doméstica, conjugal, de vizinhança, de criação e de ética pessoal. Longe de buscar um consenso cretinizante e infantilizante, a questão será, no futuro, a de cultivar o dissenso e a produção singular de existência. A subjetividade capitalística, tal como é engendrada por operadores de qualquer natureza ou tamanho, está manufaturada de modo a premunir a existência contra toda intrusão de acontecimentos suscetíveis de atrapalhar e perturbar a opinião. Para esse tipo de subjetividade, toda singularidade deveria ou ser evitada, ou passar pelo crivo de aparelhos e quadros de referência especializados. Assim, a subjetividade capitalística se esforça por gerar o mundo da infância, do amor, da arte, bem como tudo o que é da ordem da angústia, da loucura, da dor, da morte, do sentimento de estar perdido no cosmos... É a partir dos dados existenciais mais pessoais ? deveríamos dizer mesmo infra-pessoais ? que o capitalismo constitui seus agregados subjetivos maciços, agarrados à raça, à nação, ao corpo profissional, à competição esportiva, à virilidade dominadora, à star da mídia... Assegurando-se do poder sobre o máximo de ritornelos existenciais para controlá-los e neutralizá-los, a subjetividade capitalística se inebria, se anestesia e a si mesma, num sentimento coletivo de pseudo-eternidade".
É extremamente humano ao afirmar que devemos "considerar os sintomas e incidentes fora das normas como índices de um trabalho potencial de subjetivação". E coloca como essencial que se organizem "novas práticas micropolíticas e macrossociais, novas solidariedades, uma nova suavidade juntamente com novas práticas estéticas e novas práticas analíticas das formações do inconsciente. [...] Convém deixar que se desenvolvam as culturas particulares inventando-se, ao mesmo tempo, outros contatos de cidadania. Convém fazer com que a singularidade, a exceção, a raridade funcionam junto com uma ordem estatal o menos pesada possível."
Afastando-se das dialéticas hegelianas e marxistas diz que "a eco-lógica não mais impõe ?resolver? os contrários". Insiste que a nova lógica ecosófica "se aparenta à lógica do artista que pode ser levado a remanejar sua obra a partir da intrusão de um detalhe acidental, de um acontecimento-incidente que repentinamente faz bifurcar seu projeto inicial, para fazê-lo derivar longe das perspectivas anteriores mais seguras".
lipão/fê escreveu às
2:14:00 PM -