Subjetivações sobre ecosofia
O primeiro ponto a considerar é que ecosofia não é ciência e não pretende ser ciência. A ecosofia não precisa da ciência para ser e, por sua vez, pode conter ciência. Da mesma forma, não pretende ter um método científico. Pode vir a se aliar aos métodos, e se tiver, tem o seu próprio método, único e singular.
Um cientista de qualquer área do saber pode fazer pesquisas quantitativas em relação a ecosofia e eleger algum foco de aplicação, seja no campo social ou no clínico. Certamente encontrará dados interessantes, relativos a tudo o que resulta qualidade de vida sustentável. Mas pesquisas quantitativas não constituem uma prioridade da ecosofia, tampouco as demonstrações institucionais.
A ecosofia pode ser uma disciplina nos cursos de ecologia. A síntese das ciências humanas e biológicas, somadas a eco, resulta na ecosofia. Todas as disciplinas ligadas ao homem, à saúde e à biologia, devem se envolver com ecosofia, porque aqui temos uma intersecção entre todas.Penso na formação do ecósofo somente como um processo pessoal interminável, nunca institucional. O institucional já descaracteriza o que é ecosófico. Qualquer forma de institucionalização da pessoa pode ser considerada sintoma. A formação do ecósofo vem da sua subjetividade e da convivência com outros ecósofos. Só mesmo a própria pessoa, e as outras pessoas, sabem quando ela está ou não está sendo ecosófica. É sempre relativo.
Ecosofia só acontece no presente contínuo, de modo que não exista "me tornei ecosófico", e sim "estou sendo ecosófico". O ecósofo só o é em potencial. Portanto, a ecosofia, como um estado de ser e fazer, só é possível livre de graus, titulações e conselhos. O que ela pode conter é, no máximo, competências e habilidades técnicas. Ao se tratar de ecosofia o mais adequado é cursar a desgraduação, passar pela descolação de grau, ou seja, uma destitulação. Metaforicamente seria uma carta venial, sendo que o alvo aí são as instituições e as institucionalizações do saber e das práxis.Se levarmos a ecosofia ao campo da educação, só podemos pensar em uma educação da sensibilidade e das percepções. Algo similar a alguns pontos da educação antroposófica. O papel de professor é dispensado e a figura que se aproxima da pessoa educadora em ecosofia, é a do hierofante. A educação para a cidadania é facilitada para princípios ecossociais, pautados por singularidade e solidariedade, sendo estas nossa timé e areté.
Se levarmos a ecosofia ao campo da saúde - como no projeto Platôs -, temos espaço para a multidicliplinaridade sem hierarquia. Valorizamos ao máximo as subjetividades dos profissionais neles mesmos e em suas atuações. Limitações como saúde do corpo e saúde mental são completamente quebradas. Até mesmo os conceitos saúde e doença são amplamente questionados.Um terapeuta ecosófico, por exemplo, tem como objetivo básico facilitar a produção de subjetividade. A produção de subjetividade configura o processo e é o objetivo e o resultado esperado. O terapeuta faz isso, utilizando-se da sua própria subjetividade, e tendo o rigor ético para não agenciar a subjetividade do outro, seja este agenciamento centrado em si ou centrado em qualquer abordagem teórica. Toda a sua ação tem por objetivo ser um dispositivo de subjetividades e ações do referente. Numa perspectiva ecosófica, a relação não se dá por meio do clássico sujeito-objeto, mas sim por meio de sujeitos auto-referentes, como na esquizoanálise.
Na arte, encontro ecosofia na dança butoh, na cybercultura, nas artes étnicas, nas plásticas absolutamente desligadas de qualquer propósito agenciador... arte e ecosofia se encontram perfeitamente, uma vez que ecosofia é um processo estético.É também filosofia, por ser um processo ético. Por ser um contraponto a todo conhecimento, técnicas e práxis. Por estar equiparada a um conhecimento dos conhecimentos, a uma crítica e uma reflexão se os conhecimentos estão sendo ou não ecosóficos.
No campo social, ecosofia é uma atitude solidária em esferas micro e macro-políticas. Similar a um ativismo em prol da preservação ambiental, a ecosofia propõe um ativismo em prol da preservação da subjetividade primária. Pensa também numa subjetividade sustentável. Neste ponto, depõe contra todos os sistemas que a assaltam, a induzem e a aprisionam. Por fim, ecosofia jamais se presta à manutenção de um sistema social e de um sistema de vida organísmico que se deteriora e leva a deteriorização. Mesmo que estes sistemas sejam autoritários e se imponham de forma subliminar, telemática e explicitamente repressiva em nome de qualquer oficialidade. Neste ponto, ecosofia é uma atitude subversiva e anárquica. Diante da religião, é herege.Tudo o que a ecosofia pode proporcionar tem a ver com um novo mundo e com novas pessoas, pessoas de verdade, desmascaradas, desinstitucionalizadas, enfim pessoas ecosóficas. Freak é um adjetivo que, em todos os seus sentidos, pode se atribuir a uma pessoa ecosófica.Para quem se sente tentado a embarcar nessa viagem, proponho iniciar por uma Viagem Ecosófica.
lipão/fê escreveu às
3:25:00 PM -