Ao registrar as três ecologias ? a do meio ambiente, a das relações sociais e a da subjetividade humana -, Guattari manifesta sua indignação perante um mundo que se deteriora lentamente.
Mostra que o planeta Terra vive um período de intensas transformações técnico-científicas, mas estas engendram fenômenos de desequilíbrios ecológicos que ameaçam a vida em sua superfície. Os modos de vida individuais e coletivos estão em progressiva deteriorização e as relações afetivas, familiares e sociais, cada vez mais padronizadas, estão reduzidas a sua mais pobre expressão. A relação da subjetividade com sua exterioridade ? seja ela social, animal, vegetal, cósmica ? se encontra num movimento de implosão e infantilização regressiva.
Ao falar no turismo mostra que este "se resume quase sempre a uma viagem sem sair do lugar", referindo-se ao olhar condicionado que só vê, mas não tem observa, contempla e vivencia um novo território.
Considera as formações políticas incapazes de lidar com esta problemática, uma vez que dimensionam ecologia enquanto danos industriais, de modo tecnocrático. Guattari aponta que só mesmo uma articulação ético-política ? a ecosofia ? entre os três registros ecológicos é que poderia esclarecer convenientemente tais questões.
"O que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico. Em virtude do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico, redobrado pela revolução informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou a da cultura, da criação, da pesquisa, da reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?"
Mostra que em todo o mundo, em países pobres ou desenvolvidos existem "blocos inteiros da subjetividade coletiva que se afundam ou se encarquilham em arcaísmos", como é o caso da "assustadora exacerbação dos fenômenos de integrismo religioso".
Diz que a verdadeira resposta à crise ecológica é uma "autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais". Revolução "não só nas relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo".
Guattari mostra que para onde quer que nos voltemos, reencontramos o paradoxo do desenvolvimento dos meios técnico-científicos capazes de resolver problemas ecológicos e de outro lado, a incapacidade das forças sociais de se apropriar desses meios para torná-los operativos.
Mesmo que sejamos levados a pensar que esta é uma fase de declínio, mesmo com todo o serialismo da mídia (mesmo ideal de status, mesmas modas, mesma música), "por toda parte surgem reivindicações de singularidade", como as ecológicas e a das chamadas minorias, das mulheres, dos jovens em relação à música, dos homossexuais etc. Ao se referir à juventude, coloca que "embora esmagada nas relações econômicas dominantes que lhe conferem um lugar cada vez mais precário, e mentalmente manipulada pela produção de subjetividade coletiva da mídia", consegue "desenvolver suas próprias singularizações com relação à subjetividade normalizada", e exemplifica com linguagens musicais mundiais como o rock e a música eletrônica.
"É nesse contexto de ruptura, de descentramento, de multiplicação dos antagonismos e de processos de singularização que surgem as novas problemáticas ecológicas".
Buscando soluções aponta para que "a nova referência ecosófica indique linhas de recomposição das práxis humanas nos mais variados domínios". Em todas as escalas individuais e coletivas, trata-se de "debruçar sobre o que poderiam ser os dispositivos de produção de subjetividade, indo no sentido de uma re-singularização individual e/ou coletiva", tanto da vida cotidiana, como na reinvenção da democracia". E finaliza que "tal problemática, no fim das contas, é a da produção de existência humana em novos contextos históricos".
"O princípio comum às três ecologias consiste, pois, em que os Territórios existenciais com os quais elas nos põem em confronto não se dão como um em-si, fechado sobre si mesmo, mas como um para-si precário, finito, finitizado, singular, singularizado, capaz de [...] uma abertura processual a partir de práxis que permitam torná-lo ?habitável? por um projeto humano. É essa abertura práxica que constitui a essência desta arte da ?eco? subsumindo todas as maneiras de domesticar os Territórios existenciais, sejam eles concernentes às maneiras íntimas de ser, ao corpo, ao meio ambiente ou aos grandes conjuntos contextuais relativos à etnia, à nação ou mesmo aos direitos gerais da humanidade".
"Disso decorrerá uma recomposição das práticas sociais e individuais que agrupo segundo três rubricas complementares ? a ecologia social, a ecologia mental e a ecologia ambiental ? sob a égide ético-estética de uma ecosofia".
Apesar de Guattari não construir o seu discurso de modo tópico, uma vez que as Três Ecologias são transversais, tentei organizar aqui suas colocações e propostas, os meios de operar os problemas apontados referentes à atualidade e o futuro do homem em relação com a sociedade e o meio ambiente.
lipão/fê escreveu às
3:49:00 PM -