A alma e o corpo para Gilbert Simondon
De sorte que, como o demonstrou Gilbert Simondon, não há substâncias, mas processos de individuação, não há sujeitos, mas processos de subjetivação. A subjetivação como ação ou processo continuado constitui um "dentro", que não é outro senão "a dobra do fora" (Deleuze). Os dualismos achatam e unificam violentamente o que eles distinguem, impedindo, assim, de localizar as dobras e as curvaturas pelas quais passam as regiões do ser, uma na outra. "Descartes não apenas separou a alma do corpo; ele criou também, no próprio interior da alma, uma homogeneidade e uma unidade que proíbe a concepção de um gradiente contínuo (sublinho, P. L.) de distanciamento em relação ao eu atual, reunindo as zonas as mais excentradas, no limite da memória e da imaginação, a realidade somática." (Gilbert Simondon, L?individuation psychique et collective, p. 167)
A alma e o corpo, apreendidas como multiplicidades diferenciadas, comunicam-se por suas zonas de sombra. A consciência livre, racional e voluntária, de um lado, o mecanismo físico-químico dos órgãos, de outro, se juntam pelas sensação, pelo afeto, toda a obscuridade psicossomática do desejo, da sexualidade e do sono. O maquinal, o reflexo, o herdado do psiquismo, toda a divisão e a exterioridade do espírito a si mesmo o redobram para o somático, fazem-no tornar-se corpo.
A união psicossomática só se torna um problema se tentarmos conectar as extremidades da dobra, que são apenas dois casos limites: de um lado, a consciência clara e racional; do outro, o corpo-matéria ou o cadáver auto-móvel. Mas a alma e o corpo sempre já se comunicam pela dobra que os refere um ao outro, pelas multiplicidades negras da curvatura, que formam a maior parte do sujeito.
O esforço para seguir a dobra, esboçado aqui sobre o caso da alma e do corpo, deveria ser levado a todas as oposições molares. A cada vez, no lugar de entidades homogêneas e bem recortadas, descobriríamos um plissê fractal (Mandelbrot), uma infinita diferenciação do ser segundo dobras, passando continuamente umas nas outras.
lipão/fê escreveu às
4:31:00 PM -