Imagens do tempo em Deleuze
A imagem do tempo absoluto é criticada por Deleuze em nome de um tempo sem imagem. Esta é a visão de Pélbart sobre a obra de Deleuze, que nos permite entender a obscuridade desse tema ao longo da profusão alucinante de conceitos.
"The time is out of joint", exclama Hamlet. O que significa o tempo saído dos eixos, devolvido a sim mesmo, o tempo puro e liberado? É um tempo liberado do movimento, isto é, do movimento centrado em torno de seu eixo e encadeado e direcionado conforme a sucessão de seus presentes encaixados. Deleuze alude então a um tempo liberado das tiranias do presente que antes o envergava, e disponível, doravante, às mais excêntricas aventuras. (...) Assim, no seio do tempo contínuo dos presentes encadeados (cronos) insinua-se constantemente o tempo amorfo do Acontecimento (aion), na sua lógica não dialética, impessoal, impassível, incorpórea: "a pura reserva", virtualidade pura que não pára de sobrevir (Pélbart, P. O Tempo não-Reconciliado, in ALLIEZ, E. Gilles Deleuze: uma Vida Filosófica, São Paulo: Ed. 34, 2000, p.88).
A conceituação do tempo do acontecimento é crucial para entendermos a proposta desse pensamento liberado das formas, o tempo como Fora ou exterioridade do pensamento.
(...) um mesmo acontecimento se distribui em mundos distintos segundo tempos diferentes, de modo que, o que para um é passado, para outro é presente, para um terceiro é futuro ? mas é o mesmo acontecimento. Tempo sideral da relatividade, porque inclui uma cosmologia pluralista, no qual um mesmo acontecimento se distribui, em versões incompatíveis, em uma pluralidade de mundos (Ibid, p.88-9).
O acontecimento se fragmenta em uma virtualidade que compreende todos os tempos possíveis em uma memória ontológica que forma estratos sucessivos.
(...) a memória deixa de ser uma faculdade interior ao homem, é o homem que habita o interior de uma vasta Memória, Memória-Mundo, gigantesco cone invertido, multiplicidade virtual da qual somos um grau determinado de distensão ou contração (Ibid, p.90).
Essa memória ontológica se contrapõe à historicidade, assim como o acontecimento se contrapõe à ordem cronológica. Deleuze diz claramente: a História é um marcador temporal do Poder.
O tempo passa então a ser concebido não mais como linha, mas como emaranhado, não como rio, mas como terra, não fluxo, e sim massa, não sucessão, porém coexistência, não um círculo, mas turbilhão, não ordem, e sim variação infinita, de modo que não se trata mais de remetê-lo a uma consciência ? a consciência do tempo ?, mas à alucinação. Enlouquecimento desse tempo fora dos eixos, não sem relação com o tempo daqueles que, fora dos eixos, são ditos loucos. (...) Não parece abusivo considerar que o enlouquecimento do tempo tal como Deleuze o trabalha comunica-se diretamente com a temporalidade da loucura dita "clínica". Enquanto isso, em contrapartida, boa parte da literatura sobre as psicoses se vê inteiramente desarmada diante das múltiplas figuras temporais que proliferam a olhos vistos na clínica, e que as teorias "psi" têm dificuldade em abarcar, tendo em vista uma normatividade temporal da qual são necessariamente prisioneiras. (...) Assim, de algum modo a temporalidade acaba sendo identificada a historicização. Com tudo o que essa perspectiva possa apresentar de interessante, ou útil, e até necessária na clínica, ela tem o inconveniente de dificultar o acolhimento dos devires na psicose.
continua...
lipão/fê escreveu às
12:53:00 PM -