Artaud vivenciou tais mutilações. Entende-se assim os motivos de sua fúria com essas práticas:
Passei nove anos num asilo de alienados.
Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.
(...)
Se não tivesse havido médicos
nunca teria havidos doentes,
nem esqueletos de mortos
doentes para escortaçar e esfolar,
porque foi com médicos e não com doentes que a sociedade começou.
É desta maneira que concebemos Artaud como uma cartografia imaginal e como este CsO capaz de se insurgir contra as violências cognitivas do saber racionalizante. Artaud, assim como o CsO exibe uma ética da transgressão e vivencia ao limite suas zonas de intensidades. Ou, ainda, advogam Deleuze e Guattari, Artaud seria um rizoma que desloca sentidos e inaugura aquilo que Michel Foucault denominou em As palavras e as coisas de um pensamento como um ato-perigoso: "Antes mesmo de prescrever, de esforçar um futuro, de dizer o que é preciso fazer, antes mesmo de exortar ou somente alertar, o pensamento, ao nível de sua existência, desde sua forma mais matinal, é, em si mesmo, uma ação- um ato perigoso. Sade, Nietzsche, Artaud e Bataille o souberam, por todos aqueles que o quiseram ignorar; mas é certo também que Hegel, Marx e Freud o sabiam".
Como andarilho pelo mundo dos ?gênios híbridos?(Deleuze), Artaud, cartografa regiões formadas por imensos continentes imaginais e habitadas pelas famílias dos que pensam e experimentam perigosamente a vida e as idéias. Conforme, Deleuze e Guattari destacam em ?O que é a filosofia??, Artaud conjuntamente com Hölderlin, Rimbaud, Marllarmé, Kafka, Fernando Pessoa e outros se inscreve no imaginário dos leitores como ?personagem conceitual? ou um autor malabarista que produz ?obras com pés desequilibrados?. Ele ao se movientar diante do mundo como os ?acrobatas esquartejados num malabarismo perpétuo?, exercita aquilo que Nietzsche denominou para filosofia como modos de existência ou possibilidades de vida. Um ser que cunhou definitivamente sua revolta contra as noções cartesianas que separam e fragmentam cultura e vida: "protesto contra a idéia separada que se faz da cultura, como se de um lado estivesse a cultura e, do outro, a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio apurado de compreender e de exercer a vida".
lipão/fê escreveu às
1:29:00 PM -