Artaud é o próprio corpo sem órgãos, na acepção de Deleuze e Guattari. Para tais autores, o CsO "é não desejo, mas também desejo. Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Ao Corpo sem Órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite. Diz-se: que é isto - 0 CsO - mas já se está sobre ele - arrastando-se como um verme, tateando como um cego ou correndo como um louco, viajante e nômade da estepe. É sobre ele que dormimos, velamos, que lutamos, lutamos e somos vencidos, que procuramos nosso lugar, que descobrimos nossas felicidades inauditas e nossas quedas fabulosas, que penetramos e somos penetrados, que amamos."
Quando Deleuze e Guattari tematizam a idéia de CsO, fazem com a intenção de abrir fogo aos ditames da psicanálise. Para eles não é possível conformar-se com a mesmice da tríade Pai-Mãe-Filho, pois este mimetismo triangular conduz ao "incurável familiarismo", esquarteja a produção desejante e registrará a todos num harmonioso organismo. Poderíamos afirmar que esses registros arbitrários, especialmente feitos pela psicanálise e pela psiquiatria, constituem-se em verdadeiros corpos com órgãos. Explico. Esquadrinham o corpo, determinando aos órgãos suas funções, territórios e higienizações. É contrário a esses registros mutiladores e disciplinares que se inscrevem as linhas de fuga da cartografia do CsO de Antonin Artaud. A produção desejante artaudiana configurará o Corpo sem Órgãos, na medida em que, para Deleuze e Guattari, ele signifique o campo de imanência do desejo ou o plano de consistência do desejo, ou seja, será nesse campo ou plano onde o desejo se definirá como processo de produção, independente de instâncias exteriores que indiquem alguma falta a ser suprida, como advoga a psicanálise.
No livro O anti-édipo , Deleuze e Guattari, são crus e impiedosos com o "Papá-Mamã". Apontam suas armas, tentando desconstruir as muralhas dos "impérios" no Complexo de Édipo. Para eles, a psicanálise ao tentar explicar os indivíduos, lança olhares de uma luneta codificadora, separadora e mutiladora para registrá-los. Trata os delírios, as imagens disformes como distúrbios mentais e recalques primordiais.
O CsO é o próprio anti-édipo, assim como Artaud o incorpora ao declarar guerra aos órgãos:
(...)
se quiserem, podem meter-me numa camisa de força
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.
quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos
então o terão libertado dos seus automatismos
e devolvido sua verdadeira liberdade.
Artaud configuraria, portanto, uma "máquina de guerra" fundamental de combate aos registros castradores da violência cognitiva da razão. Denominamos de violência cognitiva, sobretudo, àquela advinda do pensamento cartesiano que não pára de ordenar aos seus inspetores para que vigiem com suas lunetas os desregramentos, as linhas de fuga e as transgressões. É um tipo de violência, onde cada vez mais, especializam-se os conhecimentos, contribuindo como nos diz Artaud, para a "trituração dos corpos". São verdadeiros estiletes cognitivos, fatiando os saberes e impossibilitando o diálogo com uma razão mais aberta e não fragmentada. Neste aspecto, doença, saúde e loucura, mercantilizam-se, fazendo parte da própria esfera de circulação de capitais. O corpo se esquarteja ou se estilhaça em infinitos pedaços para alimentar o desejo sádico e instrumental das especialidades. A loucura é tratada como intervenção clínica e como confinamento compulsório do tratamento psiquiátrico
lipão/fê escreveu às
1:43:00 PM -