O corpo sem órgãos de Artaud, de que ele fala no poema
"O homem-árvore", sempre me fascinou. Sempre me fez delirar com o avesso do "organismo". Organismo é uma leitura que se pode fazer do corpo e deriva da idéia de que, por dentro, obedecemos a uma organização que nos explica e nos determina. Porque de nós os órgãos foram extraídos, dissecados, estudados, classificados, e colocados de novo, dentro do corpo (o nosso? o de outrem?), só que agora catalogados, conhecido como órgãos a que correspondem funções, passamos a ter um dentro manipulável pelo saber, uma inscrição/tatuagem em nós que permite o discurso "sobre" - uma representação que nos representa, que nos aperta, que nos encarcera. Uma gramática.
O corpo sem órgãos é a resistência ao organismo, é o corpo não fragmentado, o corpo informe e incomponível, inexplicável porque livre/dispensado de explicação. Um corpo que some como água por entre os dedos da representação, que livra-se dela e solta-se de sua leitura. Um corpo que só conhece a expressão - cinqüenta poemas justificam uma vida. É o corpo com memória do tempo antes das instituições, antes dos "dentros" escavados por elas e por seus saberes. E é também o corpo com desejo do tempo que virá, o tempo sem instituições; é o corpo do depois do esquecimento dos "dentros", o corpo sábio porque desinformado. O corpo sem órgãos pode/pede a magia e a alquimia, esses acontecimentos que, fugindo à racionalidade científica, fugindo à representação, criam produtos únicos, inexplicáveis ? expressão, arte gratuita, excessiva, inesperada e não-repetível (a não ser como diferença) do viver.
O corpo sem órgãos é uma linguagem sem estrutura.
lipão/fê escreveu às
4:05:00 PM -