A serenidade de um excomungado
Adotemos uma perspectiva estritamente kantiana e tomemos como princípio que o tempo é a condição da subjetividade, e portanto o "eu penso" é a realidade do campo empírico. Na possibilidade de realização do pensamento nesse "eu" encontramos o otimismo da Crítica, que designa uma Omnitudo Realitatis que estende o plano empírico ao infinito, ao mesmo tempo em que interioriza os predicativos do pensamento e cria um plano transcendental. A fenomenologia nasce desse otimismo, e nele encontra seu fim, já que seu objeto, o sujeito, fundamenta no tempo do fenômeno sua positividade e sua condição de transcendência.Esse sujeito é ilusório. A possibilidade do pensamento não é transcendente a um sujeito ideal, mas imanente e real, composta no tempo da subjetividade de um suposto "eu" empírico sem início nem fim, ou, como diz Deleuze, um "eu" que se resume a uma multiplicidade aberta de relações de forças intensivas. A figura desse sujeito vago e multiforme seria o nômade, e a Omnitudo Realitatis o deserto e as tribos. Aqui reencontramos a Crítica em sua riqueza, onde a possibilidade do pensamento se abre para uma multiplicidade miraculante: o tempo do pensamento como devir. O tempo como devir é sinônimo de tempo como diferença, e a possibilidade do pensamento se situa no plano impessoal dos acontecimentos. Esse plano impessoal se compõe de intensidades e velocidades que fragmentam o tempo em uma dispersão ? o tempo como Fora.Há um paralogismo quaternio terminorum que expõe a dicotomia sujeito-objeto revertida sobre o infinito temporal. Ele se define nessas duas proposições:
Maior = Tudo o que pode ser apenas sujeito (e não predicado) é substância.
Menor = o "eu" é apenas sujeito; portanto, o "eu" é uma substância.
Kant rejeita essa proposição indicando um erro de lógica, pois o "eu" enquanto sujeito lógico do pensamento não é a alma-substância. Isto seria suficiente para acabar com toda a psicologia racional. O problema é que Kant era um entusiasta da física newtoniana, e portanto concebia o tempo à luz da imagem de uma substância homogênea ? o tempo como anti-natureza, o tempo como dialética transcendental.Mas o tempo ainda pode ser natureza, a vida se consumindo e criando novas imagens de pensamento. A possibilidade do pensamento nos sugere a natureza de tempos incompossíveis de um real que abarca um sistema relativo de caminhos virtuais, na atualização de tempos divergentes e paralelos. Este seria o tempo como devir, a serenidade do excomungado: Deus sive Natura. Spinoza concebia as potências do ser e do pensamento investidas na plena expansão vital, e por isso acusaram-no de panteísmo. Eis porque a Ética foi considerada uma livro-máquina infernal: nela não há espaço para o transcendente.
lipão/fê escreveu às
5:03:00 PM -