Trecho do livro "O QUE É LOUCURA" ? Frayze-Pereira
Doença Mental ou desvio social
Em O Normal e o Patológico, o filósofo Georges Canguilhem observa que é próprio à doença, orgânica ou psíquica, vir interromper o curso de algo, isto é, ser critica. Nesse sentido, mesmo quando ela se torna crônica, após Ter sido crítica, " há sempre um passado do qual o paciente ou aqueles que o cercam guardam certa nostalgia." Portanto, o indivíduo é doente sempre em relação: em relação aos outros, em relação a si mesmo. Isto significa que o próprio da loucura como doença mental, conforme a expressão médica, é ser rebelde a uma definição positiva. Em outras palavras, é teoricamente muito difícil, senão impossível, definir a loucura em si mesma, como um fato isolado.
Com efeito, os termos segundo os quais se procura dar uma definição da loucura são, explicita ou implicitamente, sempre relacionais. Isto é, designa-se louco o indivíduo cuja maneira de ser é relativa a uma outra maneira de ser. E esta não é uma maneira de ser qualquer, mas a maneira normal de ser. Portanto, será sempre em relação a uma ordem de "normalidade", "racionalidade" ou "saúde" que a loucura é concebida nos quadros da "anormalidade", "irracionalidade" ou "doença"
A palavra latina norma, que esta na origem do termo normal, significa "esquadro." A palavra normalis quer dizer " aquilo que não se inclina nem para a direita nem para a esquerda," ou seja, que é "perpendicular," que se mantém num justo meio termo." Portanto, uma norma, uma regra, é aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar". Neste sentido, normalizar é impor uma exigência a uma existência que possui um caracter diversificado, irregular. Essa diversidade vai se apresentar em relação a exigência como um elemento de resistência e inderterminação. Porem, é preciso notar que uma norma, uma regra, se propõe como um modo possível de eliminar uma diferença. E ao se propor dessa forma, a própria norma cria a possibilidade da sua negação lógica.
Realmente, ao procurar regular a diversidade da existência, uma norma sempre comporta a abertura para uma outra possibilidade que só pode ser inversa. Melhor dizendo, qualquer preferência de uma ordem possível ou de um estado de coisas satisfatório que uma norma instituída expressa é acompanhada implicitamente, pela a aversão à ordem inversa possível. Neste sentido, o "anormal, enquanto a-normal, é superior a definição à definição do normal, é a negação lógica deste"
Entretanto, o sentido, a função e o valor de uma norma nascem apenas do fato de existir algo, estranho a ela, que não corresponde à exigência a que ele obedece. Isto quer dizer que uma norma só vem a ser norma, exercendo a sua função normativa ou de regularização, mediante a antecipação da possibilidade de sua infração. Portanto, é" a anterioridade histórica do futuro anormal que procura uma interação normativa"
Se o normal se define mediante a execução de um projeto normativo, este, ao mesmo tempo em que engendra o anormal ( o anormal é condicionado pelo normal ), é acionado por ele ( o anormal é condição do normal). Em outras palavras, o anormal é uma virtualidade inscrita no próprio processo de constituição do normal e não um fato ou uma entidade autônoma que definiríamos pela identificação de um conjunto de propriedades delimitadas e imutáveis. O anormal é uma relação. E é por isso que é tão difícil definir a loucura em si mesma.
lipão/fê escreveu às
12:53:00 PM -