Roberta Oliveira
Ichel Melamed não tem televisão.? Da última vez que declarei isso, disseram que era absurdo alguém que trabalha em televisão não ter uma ? diverte-se o autor, ator e apresentador do programa ?Re-corte cultural?, da TVE.
Dois são os motivos que levam Melamed a manter bem longe dele tal aparelho. Primeiro:
? A televisão é uma máquina de anestesia, é auto-referencial, só sabe falar dela mesma.
Segundo:
? Tenho um projeto: ler 250 livros que marcaram a história da literatura e sei que, se tiver uma televisão em casa, vou acabar tendo preguiça.
Dos 250 clássicos da lista ? 200 da literatura universal e mais 50 nacionais ? Melamed calcula ter devorado 60%. Entre um clássico e outro, Melamed arruma tempo de folhear os jornais. E nem sempre gosta do que lê. O autor e ator não ficou satisfeito ao saber que, segundo o também dramaturgo Fernando Arrabal, ?nos dias de hoje, transgredir, provocar ou ser escandaloso é algo praticamente impossível?.
? Não acreditei ? lembra Melamed. ? Não podemos nos conformar, ver tudo com um olhar anestesiado. Ter um continente, como a África, totalmente abandonado, é escandaloso. Ver o Rio vivendo uma guerra civil é escandaloso. É preciso desconfiar do olhar da novela, do olhar da persuasão. E o melhor espaço para transgredirmos, provocarmos e chocarmos ainda é o teatro.
É inspirado por estas palavras e em outras que, segundo ele, houve quem dissesse já estarem datadas, como ?politizado? e ?engajado?, que Melamed cria seus espetáculos. Depois do monólogo ?Regurgitofagia?, sucesso de público e crítica em 2005 e que ainda vai ser apresentado este ano em Nova York e em Berlim, o ator acaba de estrear no Espaço Sesc seu novo trabalho, ?Dinheiro grátis?. ? ?Dinheiro grátis? começa no ponto em que o anterior terminava ? diz Melamed. ? Em ?Regurgitofagia?, eu discutia se a gente ainda antropofagiava as influências socioculturais que vêm de fora ou apenas as assimila sem discussão. Quando sentei para escrever a segunda parte da trilogia, descobri que o dinheiro estava o tempo todo presente e resolvi fazer um texto em que ele fosse o epicentro. A peça levanta uma questão: se o capitalismo está falido, então, qual será a saída?
Terceira parte de trilogia sai ainda este ano
?Regurgitofagia? e ?Dinheiro grátis? são as duas primeiras partes daquela que Melamed chama de ?Trilogia brasileira?. A terceira, ?Homem música?, estréia em forma teatral no segundo semestre. Junto, Melamed quer lançar seu primeiro romance, hoje com 300 páginas que ele pretende reduzir pela metade, e gravar um CD, que mistura música e poesia. A trilogia está apoiada num tripé:
? O primeiro ponto deste tripé é uma pesquisa de linguagem que busca o engajamento voluntário/opcional do público no espetáculo ? começa a listar Melamed. ? O segundo é a integração entre várias linguagens. E o terceiro é a busca de um testemunho crítico da contemporaneidade.
O ator chama de ?engajamento voluntário/opcional? a relação que estabelece com o público, porque ninguém é obrigado a participar. Em ?Regurgitofagia?, os espectadores exerciam este direito a partir do momento em que riam ou gritavam, porque cada vez que faziam uma coisa ou outra, através de um aparelho, Melamed recebia descargas elétricas. Em ?Dinheiro fácil?, esta relação se estabelece através de notas de R$ 1.
? O público tem a possibilidade de participar de um leilão de coisas palpáveis ou idéias. O dinheiro é um signo que circula livremente, tanto pode entrar, como sair ? explica Melamed, que ainda faz alguns truques de mágica. ? A idéia não é dizer para os espectadores que sou o dono da verdade, e sim que existem várias verdades e que eles precisam optar. Apatia é ruim. É preciso se posicionar.
Se quiser entrar em cena, no entanto, o espectador terá que passar por arame farpado.
? Este é mais um desafio para os espectadores ? diverte-se Melamed, que ainda espalhou pelo teatro 250 máscaras de tela reproduzindo rostos de personalidades, que ficarão diante de cada um dos espectadores. ? A idéia é que as pessoas participem ou sendo elas mesmas ou encarnando personalidades como Marilyn Monroe, Che Guevara ou Paulo Maluf.
Fonte: O Globo
Moka escreveu às
5:12:00 PM -