Dessa forma sempre reconhecemos e afirmamos com uma parte do nosso ser, por pensamentos ou atos, o que com a outra parte negamos e combatemos. Criados numa educação de moral firme, nunca chegaremos a libertar parte de nossa alma desse convencionalismo, mesmo depois de individualizados na medida do possível e ter se divorciado do conteúdos dos ideais e das crenças burguesas.
O "burguês" como um estado sempre presente na vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio termo entre os inumeráveis extremos e pares opostos da conduta humana. Tomemos por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino. O homem tem o medíocre poder de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem por habilidade entregar-se a vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer seus prazeres momentâneos. O "burguês" correra entre os dois, no meio do caminho. Nunca se entregará nem abandonará à embriaguez ou o ascetismo; nunca será mártir nem consentirá na sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, o esforço "burguês" nunca será nem santidade, nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades e consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que sua existência extremada e sem reservas permite.
"A cristalização da neurose é um sentimento que nasce na burguesia, e assim como ela a produz ter neurose chega ser uma condição de dignidade para a existência
lipão/fê escreveu às
12:04:00 PM -