Nós, esses que sempre se chamamos de não burgueses, que vivemos sobre o delírio de viver sobre nosso próprio entendimento, inteiramente a margem do mundo convencional, pois não conhecera nem a vida de família e nem as ambições sociais. Esses nós que nos sentimos isolados, ora como um esquisitão e doentio eremita, ora um indivíduo superiormente dotado, que por seu gênio se sobressaí do comum dos mortais. Nós que desprezamos conscientemente a burguesia e vivemos orgulhosos de não pertencermos a ela. Contudo, sob muitos aspectos vivemos inteiramente como burgueses, temos dinheiro no banco, ajudamos alguns parentes pobres, vestimo-nos com cuidados particulares mas de maneira decente e sem chamar a atenção; procuramos viver em paz com a polícia, com os coletores de impostos e outros poderes semelhantes. Mas além disso sentimos uma forte secreta atração pela vida burguesa, pelas tranquilidades decentes das residências familiares com seus bem cuidados jardins, suas escadas reluzentes com sua modesta atmosfera de ordem e decoro. Agradamo-nos assim como bons burgueses ter pequenos vícios e extravagâncias, e claro sentir-se anti-burguês, esquisitão ou gênio. Moramos em lugares sempre de família, teremos nossa educação escolar e uma série de noções, hábitos e idéias e claro muita revolta e oposição o que nos faz adolescentes por mais tempo. Teoricamente nunca teremos nada contra a prostituição, mas não seriamos capaz de levar nenhuma a sério ou considera-la realmente nossa igual. Aos criminosos políticos , aos revolucionários ou aos sedutores espirituais, podemos ama-los como se fossem nossos irmãos, ou respeitar o estado e a sociedade, mas não saberíamos como tratar um ladrão, um criminoso ou sádico, a não ser demonstrando-nos a ele uma compaixão eminentemente burguesa.
continua...
lipão/fê escreveu às
2:39:00 PM -