Psicanálise morta analise II
Levantamos aqui três contra-sensos sobre o desejo: colocá-lo em relação com a falta ou com a lei; com uma realidade natural ou espontânea; com o prazer, ou até mesmo e, sobretudo, com a festa. O desejo é sempre agenciado, maquinado, esta em um plano de imanência ou de composição, que ele próprio deve ser construído ao mesmo tempo que o desejo agencia e maquina. Ele é seu próprio construtor.
Não queremos dizer apenas que o desejo é historicamente determinado. A determinação histórica apela para uma instância estrutural que desempenharia o papel de lei, ou então de causa, de onde o desejo nasceria. Enquanto o desejo é o operador efetivo, que se confunde, a cada vez, com as variáveis de um agenciamento. Não é a falta ou a privação que cria desejo: só há falta em relação a um agenciamento do qual se é excluído, mas só se deseja em função de um agenciamento onde se está incluído. A máquina, o maquinismo, maquínico: não é nem mecânico, nem orgânico. A mecânica é um sistema de conexões graduais entre termos dependentes. A máquina, ao contrário, é um conjunto de vizinhança entre termos heterogêneos independentes . O que define um agenciamento maquínico é o deslocamento de um centro de gravidade sobre uma linha abstrata.Há quem faça a objeção que a máquina, nesse sentido, remete à unidade de um maquinista. Mas não é verdade: o maquinista está presente na máquina, no centro de gravidade, ou, antes, de celeridade, que a percorre. Por isso de nada adianta dizer que certos movimentos são impossíveis para a máquina; ao contrário, são movimentos que determinada máquina faz porque ela tem por peça um homem. Assim, a máquina cuja engrenagem é um dançarino: não se deve dizer que a máquina não pode fazer determinado movimento que o homem é o único que pode fazê-lo, mas, ao contrário, que o homem não pode fazer esse movimento senão como peça de determinada máquina. Um gesto vindo do Oriente supõe uma máquina asiática. A máquina é um conjunto de vizinhança homem-ferramenta-animal-coisa. Ela é primeira em relação a eles, já que é a linha abstrata que os atravessa e os faz funcionar juntos.
A máquina, em sua exigência de heterogeneidade de vizinhanças, vai além das estruturas com suas condições mínimas de homogeneidade. Há sempre uma máquina social primeira em relação aos homens e aos animais que ela toma em seu phylum. A máquina é social em seu primeiro sentido, e é primeira em relação às estruturas que ela atravessa, aos homens que ela dispõe, às ferramentas que ela seleciona, às técnicas que ela promove.
lipão/fê escreveu às
3:40:00 PM -