Livro Fidelidades/ São Paulo/ Ed. Alcance
Paulo Hecker
Meninos correndo com pacotes na mão
com papéis oficiais
e particulares
com contratos para reconhecer firmas
com contas
com notas
com recibos
com segundas vias
e terceiras
e quartas
de pastas
sem pastas
suados
cansados
vermelhos
sem ar
um tem dezessete mas parece treze
outro não fez onze mas jura que é quinze pra que o paguem mais
eles vão correndo brincando com a morte
furando os sinais entre rudes táxis
motos repentinas
ônibus maciços
passantes que embirram
que não saem da frente
que xingam a mãe quando dá respondem
não podem parar é a hora do banco
de fechar a loja de apertar de novo o mau apagador
a ordem foi corre
e eles vão correndo(para a morte sim se a morte quiser)
a suave pausados elevadores lhes repõe o rosto
as portas se abrem
perderam a infância
a noite boêmia toca a madrugada de uns que acordam cedo e os sono já velho nessas faces novas
desmente a manhã
eu te amei cidade
amei teu tamanho
os teus edifícios
tua multidão
esta placidez de quase deserto
dos dias feriado
se das noites altas
o teu sol tão claro
tua chuvinha humana
a beleza vítrea dos poentes frios
mas teu sangue encontro sangue derramado
é nos teus meninos correndo correndo me parando a vida.
lipão/fê escreveu às
2:51:00 PM -