ANDRÉ BARCINSKI
Existe, no Rio de Janeiro, um festival de rock chamado Ruído. Eu nunca fui, mas parece que é bacana: durante o Carnaval, várias bandas alternativas de todo o país se reúnem para dar uma alternativa roqueira aos baticuns do samba e divulgar seus trabalhos. Uma iniciativa ótima, necessária, blá blá blá...
Legal, né? Nem tanto. Toda a minha simpatia pelo evento foi pro saco assim que li no jornal que os organizadores estavam planejando entregar à Prefeitura do Rio um ?manifesto?, pedindo, nas palavras de um deles, ?que a Prefeitura incentive o artista novo, o que está à margem da sociedade cultural?.
Só pode ser piada: um festival de rock alternativo pedindo grana pública? O que é isso, a Embrafilme? O que vem depois, aposentadoria por tempo de serviço?
Será que essa galera não aprende que a ?cena? tem de viver, mesmo, à margem do poder público? O dia em que o rock for algo respeitável e merecedor do apoio dos políticos, aí é hora de irmos todos pra casa cuidar das plantas.
Uma coisa é a Prefeitura fazer shows gratuitos, que permitem a todos ter acesso a artistas e estilos variados. Outra é pedir apoio público para construir uma ?indústria cultural independente?. Independente do quê?
No fim dos anos 60, vários cineastas vieram com um papo semelhante: queriam ajuda pública - no caso, da ditadura ? para criar uma ?indústria de cinema?, que seria gerida por eles próprios, com dinheiro público. O resultado foi a Embrafilme, aquele buraco sem fundo que acabou com o cinema brasileiro e enriqueceu todos esses incompetentes.
Uma frase me chamou muito a atenção na entrevista com o organizador do festival: ?Na verdade, a produção cultural independente é só rechaçada?. Engraçado: tudo de bom que aconteceu no rock só rolou porque os artistas eram ?rechaçados?. Desde Chuck Berry sendo apedrejado pela Ku Klux Klan aos Ramones tocando em pardieiros porque ninguém mais os aceitava. Imagina só, a Prefeitura de Seattle dando uma grana pro Kurt Cobain organizar um showzinho?
Vamos pôr a música no seu devido lugar: perto das pessoas que realmente acreditam nela, que não a vêem como emprego, mas como alternativa a uma vidinha chata e burocrática. E sem cartão de ponto, por favor.
lipão/fê escreveu às
2:53:00 PM -