1) Uma máquina é diretamente (como no caso do organismo) ou indiretamente (na maior parte dos casos) autopoiética (Varela), ou auto-realizadora, (como se diz de uma profecia auto-realizadora), isto é, ela contribui para fazer durar o acontecimento da dobra que a faz ser.
2) Uma máquina é exopoiética, ela contribui para produzir um mundo, universos de significações.
3) Uma máquina é heteropoiética, ou fabricada e mantida por forças do fora, pois ela se constitui de uma dobra. O exterior já está aí presente sempre, ao mesmo tempo geneticamente e atualmente.
4) Uma máquina é não somente constituída pelo exterior (é a redobra da dobra). A máquina se alimenta, recebe mensagens, está atravessada por fluxos diversos. Em suma, a máquina é desejante. A este respeito todos os agenciamentos, todas as conexões são possíveis de uma máquina à outra.
5) Uma máquina é interfaciante e interfaciada. Ela traduz, trái, desdobra e redobra para uma máquina jusante os fluxos produzidos por uma máquina montante. Ela é ao mesmo tempo composta por máquinas tradutoras que a dividem, multiplicam e heterogenizam. A interface é a dimensão de "política estrangeira" da máquina, o que pode fazé-la entrar em novas redes, fazê-las traduzir novos fluxos.
Toda máquina possui as cinco dimensões, mas em graus e proporções variáveis. Repitâmo-lo, as máquinas nunca são puramente físicas, biológicas, sociais, técnicas, psíquicas, semióticas, etc. Cosmópolis atravessa sempre as dobras transitórias que escavam estas distinções. Certas máquinas estratificantes ou territorializantes - elas próprias perfeitamente heterogêneas - trabalham precisamente para endurecer as dobras estráticas. São redes de máquinas cosmopolitas que produzem os seres, os modos de ser, o próprio Ser de acordo com uma modulação infinita de graus e qualidades.
A produtividade ontológica se auto-entretém, pois máquinas interfaces, parasitas, vêm gerar os hiatos, os abismos ou as dobras demasiado profundas que separam as subjetividades-mundos, suas temporalidades, seus espaços e seus signos. Uma máquina mantém presente (traindo-o ao mesmo tempo) o acontecimento da dobra do qual ela resulta. Ela inscreve o clinâmen inicial na mecanosfera, faz com que ele dure, retorne e, ao fazê-lo, ela se instaura como fonte de outras dobras.
Pensando como mecanosfera, todo o mundo empírico retorna sobre o transcendental, torna-se fonte multiforme e plurívoca de universo de existência e de significação.
lipão/fê escreveu às
2:39:00 PM -