O devir possui um caráter eminentemente político que está presente em todo tipo de ação, tão logo um acontecimento abra as coordenadas extensivas de espaço e tempo de um determinado fenômeno ou acontecimento efetuado (um indivíduo/sujeito, um alguém, um fato histórico) para um complexo de linhas, para toda uma geografia de espaços intensivos, de mapas de devires que desenham fluxos no campo dos acontecimentos, posto que "cada indivíduo é uma multiplicidade infinita, e toda a Natureza uma multiplicidade de multiplicidades perfeitamente individuada", como afirmam Deleuze e Guattari (1980: 311). A liberação de uma singularidade é um acontecimento na ordem política. Vejamos por quê.
O princípio da democracia representativa pode ser ilustrativo sobre a maneira pela qual se pode entender a lição política dos devires. Uma maioria é definida politicamente pela quantidade, maioria simples ou proporcional. Antes, porém, de ser caracterizada por uma expressão numérica, uma maioria é um padrão, um "Alguém" onde o senso comum aprisionou determinadas singularidades/acontecimentos e no qual os indivíduos devem-se enquadrar através da exclusão ou submissão de outras singularidades. Contudo, como a base da maioria quantitativa é um padrão restrito, os indivíduos componentes dessa maioria tornam-se, por uma razão ou outra, mal acomodados a ela sempre que algumas dessas singularidades que não cabem no padrão estabelecido escapam. Quer dizer, toda maioria freme com a agitação em que essas singularidades/acontecimentos aprisionados fervilham.
Na verdade, como mostra Deleuze, o poder de uma maioria somente se [fim da página 23] sustenta pelo senso comum, pois os indivíduos que compõem sua supremacia numérica a submetem a uma variação intensiva contínua, pois cada um, potencialmente, é uma minoria que quer se libertar de seu jugo. Por isso, as minorias são muito mais numerosas que a maioria, pois aquelas detêm o segredo de sustentação desta última. As minorias são "multidões" cuja organização desestabiliza o consenso das maiorias e sua ordem política Neste caso, minoria não representa apenas a expressão numérica daqueles grupos que não se enquadram no padrão estabelecido pelo senso comum da maioria, mas, intensivamente, minorias são a respiração vital da maioria, ou seja, elas formam um "devir-minoritário" que diz respeito a todos; até mesmo àqueles indivíduos que parecem encarnar o modelo de Alguém para a maioria e constróem sua variação em torno do padrão vigente. O devir-minoritário, em outras palavras, é um devir universal, enquanto o maioria representa apenas um estado determinado de aprisionamento de singularidades/acontecimentos, criando a ilusão de sua universalidade ao colocar-se como representante de uma vontade, de um poder.
Um devir-minoritário é um efeito dos encontros de corpos que caracterizam uma maioria e, como tal, torna-se a quasi-causa (incorpóreo) que a libera de sua relatividade numérica. Por isso, conclui Deleuze, com propriedade, analisando um determinado veio político do teatro contemporâneo, "minoria designa aqui a potência de um devir, enquanto maioria designa o poder ou impotência de um estado, de uma situação"; as mesmas observações são válidas com respeito às imagens do cinema, pois através delas uma minoria pode passar pelo devir universal de um povo do futuro (Deleuze & Bene, 1979: 129,123-125; Deleuze, 1983: 101; Deleuze, 1985: 282-286; ver tb. Deleuze & Guattari, 1980: 133-134; Deleuze, 1990: 235). O devir, independente da matéria que ele venha a percorrer, instaura uma política do acontecimento e não uma política baseada no estado reconhecido dos indivíduos num determinado tempo e espaço.
Um devir é sempre uma questão de velocidade, sempre se entra em um devir para experimentar que se é mais rápido que uma maioria, para saber que esta última sempre chega depois, atarantada que fica, lerda que é, em seu esforço contínuo de deter as singularidades que dela querem escapar a todo custo. Ou, para apresentar o problema em termos aritméticos, como faz Deleuze, diz-se que a maioria forma entre seus elementos conjuntos ligados por uma relação axiomática, e, por isso, são como números que podem ser contados e recombinados sempre que o conjunto e, portanto, o princípio axiomático se sente ameaçado. Pode-se mesmo romper com a organização inicial e se entrar em uma nova axiomática que supostamente inclua e faça valer a representação de uma minoria.
lipão/fê escreveu às
2:50:00 PM -