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Quarta-feira, Janeiro 26, 2005

Minorias ( continuações )

Já a minoria, no devir-minoritário, é formada por elementos cujo único elo de ligação é a adição, lógica do "e", por isso eles formam "conjuntos fluidos", que não podem ser numerados, pois quando se tenta numerá-los, imediatamente sua natureza se transforma, isto é, as conexões entre seus elementos se distribuem de uma maneira completamente diversa, pois os encontros dos indivíduos/corpos que formam uma maioria sempre causam efeitos/incorpóreos que não se detêm a uma realidade numérica ou representacional. Por isso eles não são axiomatizáveis, não servem a nenhum tipo de representatividade, embora exerçam sua ação política. Numa minoria, então, "o que caracteriza o inumerável não é nem o conjunto nem os elementos; é antes a conexão, o «e», que se produz entre os elementos, entre os conjuntos, e que não pertence a nenhum dos dois, que lhes escapa e constitui uma linha de fuga", asseveram Deleuze e Guattari (1980: 587). Assim, por estar entre os conjuntos, por estabelecer relações em um meio que escapa à "elementarização" dos indivíduos, a minoria é anterior, e, portanto, mais universal que as relações entre os elementos de um conjunto.
Com efeito, minoria é uma "figura universal" que percorre, ou melhor, somente se deixa captar numa lógica cujas relações os conjuntos não podem dar conta, uma lógica do acontecimento, onde se desliza em "multiplicidades de fuga ou de fluxo", quando um grupo ou alguém "se torna todo mundo", pois "o próprio da minoria é fazer valer a potência do inumerável, mesmo quando ela é composta de um único membro. É a fórmula das multiplicidades", ou seja, onde "o devir e a multiplicidade são uma e a mesma coisa", pois na multiplicidade de devires, dizem Deleuze Guattari a respeito do cinema, "os personagens e as formas valem apenas como transformações de uns nos outros" (Deleuze & Guattari, 1980: 305, 588; Deleuze, 1985: 189).
Os próprios conjuntos e as relações axiomáticas ou numeráveis entre seus elementos têm sua gênese garantida pelo elemento inumerável das multiplicidades, de modo que o que diferencia definitivamente maioria e minoria não é a comparação numérica entre elas, mas uma relação interna ao número, relativa ao devir, que prova que as minorias, o devir-minoritário, convida todas as maiorias a se desfazerem em multiplicidades, a fim de que elas se tornem mais universais do que supõe a generalidade ou abstração de um espaço e tempo dados extensivamente e que garante o preenchimento dos valores de verdade de uma lógica axiomática ou dos conjuntos. A contra-efetuação como catalisador da lógica do acontecimento torna-se, assim, um agente genético das efetuações.
Mas, o que acontece entre uma minoria e uma maioria, tendo em vista as definições acima?
Deleuze e Parnet mostram que uma boa maneira de analisar situações políticas é mapeá-las, realizando uma cartografia de suas linhas. A maioria é uma "linha dura" ou "molar", assim como o são nossos papéis individuais ou sociais - família, escola, caserna, fábrica, profissão, são segmentos em que se subdivide essa linha. A linha segmentada é trabalhada por "linhas moles" ou "moleculares", sendo esta composta por devires que conduzem nossos papéis definidos a encontros não previstos em sua segmentaridade dura. Toda vida, todo papel, participa de intensidades não contidas em sua história, ou seja, [fim da página 25] numa biografia de família, numa memória da formação geral de um indivíduo ou grupo, no suposto consenso de uma maioria política.
Ambas as linhas são imanentes uma a outra. O mais importante para e realização dessa imanência, nessa cartografia, é que a linha molecular realiza importantes conexões de devires que não aparecem no nível da linha molar, ou seja, aquela atribui a esta última intensidades que sua segmentaridade dura não pode representar.
Por exemplo, há uma maioria em um indivíduo ou em grupo social que é trabalhado imperceptivelmente por minorias, devires moleculares, mesmo que os segmentos que formam a maioria permaneçam inalterados. Apesar da relativa inércia molar, a linha molecular de uma minoria pode estar cruzando "limiares" que magnetizam intensivamente a segmentaridade da maioria, estabelecendo conexões não previstas (Deleuze & Parnet, 1977: 151-152).
Por isso entre o molar e o molecular não há também uma oposição entre o coletivo e o individual/pessoal; a molecularidade também se define por seu aspecto 'populacional', multitudinário. Existem minorias em uma pessoa, assim como as minorias são as agitações moleculares das maiorias sociais e/ou políticas.
Maioria e minoria (devir-minoritário) atuam em planos diversos. A minoria não atua como um número, como um segmento; o que acontece em uma e em outra não pode ser avaliado pelo mesmo padrão de ocorrências.
No entanto, como se explica que a oposição minoria-maioria se coloque do ponto de vista político, tanto que um dos objetivos da representação democrática é estabelecer em seus mecanismos um contrapeso para a expressão das minorias? Se num confronto direto a maioria se sobreporia às minorias, cabe criar dispositivos que garantam a sobrevivência dessas últimas, assegurando-lhes representatividade apesar de sua menoridade quantitativa.
Essas oposições são possíveis apenas como expressões da linha segmentada, onde a maioria se coloca. Deleuze e Parnet, aprofundando sua cartografia ou "micropolítica", chamam a atenção para o fato de que a linha de segmentaridade possui três características (Deleuze & Parnet, 1977: 155-157).
Em primeiro lugar, há as "máquinas binárias" que, no caso, criam oposição entre maioria e minoria, como se ambos fossem segmentos de uma mesma linha; a binarização do conflito, pode-se adiantar, é uma maneira de cercear o caráter molecular das minorias. Naturalmente, a dicotomia entre minoria e maioria pode receber projeções de binarizações em outras oposições de segmentos, tornando complexos seus encontros; por exemplo, o problema que se coloca do ponto de vista da linha segmentada é: o que é maioria e minoria num modo se ser, numa sexualidade, numa família, entre duas classes sociais? Desta forma, a minoria é tomada como um segmento, onde o modo de expressão é a oposição.
Em segundo lugar, continuam Deleuze e Parnet, minoria e maioria como segmentos envolvem cada uma um "dispositivo de poder" que as codifica. Este é o padrão para todos as segmentos de uma dada linha dura, afinal somente na medida em que cada um deles constitui um "centro de poder" pode estabelecer com outro uma relação binária. O poder, portanto, não é central, não é uma privilégio da maioria, ele se dissemina pela linha segmentada. Além [fim da página 26] disso, há entre tais segmentos uma "máquina abstrata de sobrecodificação" que cria equivalências entre os códigos de segmentos; desta forma, por exemplo, a oposição entre minoria e maioria pode ser avaliada e fixada. Uma máquina abstrata, sobrecodificando todos os cortes entre segmentos, pode enfim 'traduzir' e coordenar as dicotomias criadas pelas máquinas binárias e oferecendo-lhes um meio de conversibilidade.
É através das máquinas de sobrecodificação, então, que o impasse minoria-maioria pode ser encaminhado por meio de uma solução que preserve a determinação de uma minoria em face de uma maioria; neste caso, estamos diante da efetivação da máquina abstrata, o que já caracteriza o aparelho de estado como terceiro elemento da segmentaridade dura. O estado é apenas a sobrecodificação efetiva de centros de poderes que dele não emanam.
Mas isso é apenas o que ocorre na linha de segmentaridade dura ou molar.
Na linhas mole ou molecular não há segmentos, apenas limiares; trata-se de uma linha não segmentada e não codificada, onde a relação entre seus elementos constituintes, que são os devires, dá-se, não através de binarizações que levam a uma sobrecodificação, mas entre ritmos. A linha molecular não anuncia apenas que o segmento dominante mudou ou que seria possível um terceiro termo que superasse a dualidade entre minoria e maioria. Pelo contrário, ela passa entre os segmentos, oferece-lhes um fluxo de descodificação, de modo que as máquinas que conduzem os devires são "máquinas mutantes" que desfazem as oposições molares. Neste caso, a minoria não é mais um segmento da linha molar, mas um fluxo (devir minoritário) que faz tanto a maioria quanto a minoria segmentarizadas fugirem de seus códigos e, portanto, de seus dispositivos de poder.
Eis a definição molecular de um conceito renovado de minoria.
Contudo, o fato de podermos observar a minoria sob o ponto de vista de duas linhas imanentes, não explica ainda porque a minoria, no sentido molecular, constitui a maioria como segmento da linha molar. Por que, afinal, a minoria teria a precedência?
Acontece que os fluxos de fuga proporcionados pela agitação da minoria não são uma passagem para fora do campo social, não são uma fuga do campo social. Ao contrário, as linha moleculares são constitutivas do campo social, isto é, de suas segmentaridades duras. São as minorias em seus movimentos de fuga que traçam os devires e as fronteiras do político em um campo social. São elas, enfim, que participam da lógica do acontecimento, contra-efetuando as oposições da linha segmentada.

lipão/fê escreveu às 11:02:00 AM -


MOKA, 24 ANOS, DJ, BARMAN E WEBDESIGNER. VIVE EM SÃO PAULO E AGORA TRABALHA!.

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