Arte ao meu ver deve ser reflexiva, onde não há reflexão sobre o papel da própria arte também não pode haver arte. A reflexão produz ansiedade: " Onde essa ansiedade está ausente, nada que aconteça ao artista como pessoa, nem mesmo a ameaça de sua extinção, poderá fazer a arte vir a existir".
A arte tem que produzir um mal estar, ser uma prática em permanente crise e instabilidade, questionada e questionável. A partir do momento que ela dispensa justificativas, como qualquer profissão estabelecida, ou seja torna-se funcional, ela deixa de ser arte. Assim podemos incluir a publicidade, os desings, os músicos de botecos, os reprodutores de música (bandas e djs), os reprodutores de pintura, o artesanato e etc...
Arte é essencialmente criação, o que importa é menos o objeto final do que a problemática e as questões levantadas pela sua criação. A proposta estética (não estou falando com Platão) e que decide seu significado de valor. A arte não é apenas forma, muito menos ilustração de idéias, é em si um modo de ação, como filosofar não é pensar e sim um modo de sentir o mundo e agir sobre ele.
É constrangedor o que vejo, e o que vejo são repetições de formas e modelos já consagrados no passado como pretensos atos de rebeldia, transgressão e inovação. Ao mesmo tempo, o que a moda insiste em definir como ultrapassado pode muitas vezes ser um antídoto, uma arma potente contra estabilidade da moda. O novo, no seu sentido mais complexo, significa uma mudança e uma ampliação da consciência. A arte é uma atividade pela qual o autor transforma a si mesmo. Não adianta repetir formas e modos de criação de uma mudança de consciência já realizada
O mesmo pode ser aplicado às letras. Quem escrevesse hoje no Brasil à maneira de Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Clarice Lispector certamente não estaria fazendo literatura. Da mesma forma, e para dar um exemplo banalizado e recorrente, de nada adianta arremedar o modo da literatura beat para fazer o que fizeram os escritores e poetas beat nos Estados Unidos dos 50/60. Para fazer algo análogo ao que eles fizeram, seria preciso antes de tudo leva-los em conta e, em conseqüência, escrever de um jeito diferente do deles, um jeito ainda desconhecido
A arte ao meu ver deve ser uma guerra de idéias, "ela deve estar no mundo", no presente e inserida num momento social, cultural e histórico que devem ser reinterpretados e recriados. A arte é devir e é o resultado de tranversalidades da subjetividade humana. É isso que esta em jogo e é isso que determina a mediocridade ou a glória cultural de uma época.
lipão/fê escreveu às
12:41:00 PM -