Seria conveniente dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo e de subjetividade. Para mim, os indivíduos são resultados de uma produção de massas. O indivíduo é serializado, registrado, modelado. Freud foi o primeiro a mostrar até que ponto é precária essa noção da totalidade de um ego. A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos de subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social. Descartes quis colar a idéia de subjetividade consciente à idéia de indivíduo ( colar consciência subjetiva à existência do indivíduo) ? e estamos nos envenenando com essa equação ao longo de toda a história da filosofia moderna. Nem por isso deixa de ser verdade que os processos de subjetivação são fundamentalmente descentrados em relação à individuação.
Daria para citar vários outros exemplos. No mundo de subjetivação do sonho, é fácil constatar uma explosão da individuação de subjetividade. No ato de dirigir um carro, não é a pessoa enquanto indivíduo, enquanto totalidade egóica que está dirigindo; a individuação desaparece no processo de articulação servo mecânica com o carro. Quando a direção flui, ela é praticamente automática, a consciência do ego, a consciência do cogito cartesiano não intervém. E, de repente, há sinais que requisitam novamente a intervenção da pessoa inteira ( é o caso de sinais de perigo). É claro que sempre se reencontra o corpo do indivíduo; sempre há a pretensão do ego de se afirmar numa continuidade e num poder. Mas a produção da fala, das imagens, da sensibilidade, a produção do desejo não se cola absolutamente a essa representação do indivíduo. Essa produção é adjacente a uma multiplicidade de agenciamentos sociais, a uma multiplicidade de processos de produção maquínica, a mutações de universos de valor e de universos históricos.
Portanto, fundar, em outras bases, uma micropolítica de transformação molecular passa por um questionamento radical dessas noções de indivíduo, como referente geral dos processos de subjetivação. Parece oportuno partir de uma definição ampla da subjetividade, como estamos propondo, para, em seguida, considerar como casos particulares os modos de individuação da subjetividade: momentos em que a subjetividade se reconhece num corpo ou numa parte de um corpo, ou num sistema de pertinência corporal coletiva. Mas aí também estaremos diante de um pluralismo de abordagens do ego e, portanto, a noção de indivíduo vai continuar a explodir
lipão/fê escreveu às
11:19:00 AM -