Nutricionista americana, ex-consultora do governo, diz que empresas de alimentos incentivam ingestão excessiva de comidaALEXANDRE MANSUR
Apesar do sobrenome, a nutricionista americana Marion Nestle não tem nenhuma relação com a multinacional suíça do ramo alimentício. Pelo contrário, a pesquisadora, que já participou de várias comissões governamentais sobre orientações nutricionais, é uma das mais importantes críticas das indústrias do setor. Fez parte da comissão que criou a famosa pirâmide alimentar, nos anos 90. Foi consultora da FDA, órgão americano que regula alimentos e remédios. Seu livro Food Politics, lançado nos Estados Unidos no ano passado, conta como as empresas fazem lobby para mover a política oficial a favor de seus interesses, passando por cima da saúde pública. Em entrevista a ÉPOCA, ela diz que nem cientistas escapam da pressão corporativa.
Marion Nestle
ÉPOCA - Qual deve ser a alimentação adequada para quem quer levar uma vida saudável?
Marion Nestle - A recomendação oficial para a população pode ser resumida em poucas palavras: coma menos, exercite-se mais e coma bastante frutas, verduras e legumes.
ÉPOCA - Como essas orientações básicas mudaram ao longo do tempo?
marion- Essas orientações não mudaram em nada nos últimos 40 anos. Pelo menos não nos Estados Unidos, onde elas são um consenso desde que doenças cardíacas, diabetes, câncer e derrames viraram as principais causas de morte, destronando as doenças infecciosas.
ÉPOCA - Mas não parece haver consenso. Há uma disputa entre seguidores da dieta pobre em carboidratos criada por Robert Atkins e os proponentes de abordagens mais tradicionais.
Marion - Essa disputa é superficial. Todas as dietas têm o mesmo princípio. São uma estratégia para fazer a pessoa pensar que o tipo de alimento que ela ingere é mais importante que a quantidade. A dieta de Atkins funciona quando faz as pessoas comer menos e perder peso. Acontece que as empresas querem que as pessoas imaginem que os pesquisadores ainda têm grandes dúvidas sobre os fundamentos da nutrição. Assim o público não questionará o valor nutricional dos alimentos industrializados. Mas a verdade é que a recomendação básica dos profissionais de saúde é inquestionável: coma menos e exercite-se mais.
ÉPOCA - Se essa orientação permanece a mesma há tanto tempo, por que as pessoas continuam tão confusas sobre o que é uma dieta saudável?
Marion - Não é tão simples. Nenhum nutricionista vai sugerir que comer uma barra de chocolate ou um saco de batata frita ocasionalmente pode fazer mal. É o padrão alimentar como um todo que conta. Com a campanha contra os cigarros, é possível dar um alerta claro: ''Não fume''. Mas com os alimentos a mensagem é mais complicada. Deve ser: ''Coma isso em vez daquilo''. E aí a indústria se aproveita para semear a confusão. Praticamente todas as informações sobre nutrição vêm das companhias de alimentos e da mídia. E ambas preferem divulgar abordagens simplistas para dietas, enfatizando novidades isoladas em lugar do conhecimento básico adquirido pelos cientistas. É por isso que se faz alvoroço toda vez que algum estudo mostra que um ou outro nutriente isolado pode fazer bem. Muita gente acha difícil seguir recomendações nutricionais porque tem a impressão de que os cientistas mudam seu ponto de vista de um dia para o outro, a cada nova pesquisa. Isso é uma distorção da mídia e de alguns cientistas. Aliás, boa parte das pesquisas científicas é financiada pela indústria, o que compromete sua isenção.
ÉPOCA - Como assim?
Marion - Para começar, as empresas alimentícias financiam departamentos acadêmicos, institutos de pesquisas e sociedades médicas, além de apoiar conferências e revistas científicas. É questionável quanto isso corrompe a integridade acadêmica dos pesquisadores. Um dos estudos mais badalados é o que relaciona uma vida saudável à chamada dieta Mediterrânea, regada a azeite de oliva. Eu editei um suplemento da Revista Americana de Nutricionismo Clínico e os artigos que falavam dessa dieta vieram de uma conferência financiada pelo Conselho Internacional do Azeite de Oliva. Há seis anos fui a um encontro da Sociedade Britânica de Nutricionistas, organizado com o apoio de Nestlé, Coca-Cola e da Comissão de Gado e Carne Bovina.
''Boa parte das pesquisas científicas que indicam o poder nutricional de margarinas, chocolates ou vinhos é financiada pela própria indústria de alimentos, o que compromete sua isenção''
ÉPOCA - Quanto isso influencia no teor das pesquisas?
Marion - Fiz um levantamento do que saiu recentemente nas revistas científicas. Um estudo afirmando que cereais matinais ricos em fibras podem reduzir o risco de câncer foi feito por um funcionário da Kellogg's. Outro dizia que margarina era melhor que manteiga para reduzir os níveis do colesterol ruim, o LDL - e foi financiado pela Associação Nacional dos Produtores de Margarina. Um dos famosos estudos que associam a ingestão de duas a cinco taças de vinho por dia com redução de mortalidade foi patrocinado pelo Instituto Técnico do Vinho Francês. Boa parte das pesquisas que sugerem que certos flavonóides do cacau podem proteger o coração foi bancada pela Mars, uma das maiores fabricantes de chocolate dos EUA. A indústria joga igualmente pesado para ganhar amigos no governo.
Na linha da cinturaALEXANDRE MANSUR
ÉPOCA - Como é esse lobby da indústria?
Marion - Só para citar um caso, em 1994, Mike Espy, secretário do Departamento Americano de Agricultura (USDA) no governo Bill Clinton, foi afastado por ter recebido presentes de lobistas da Tyson Foods, a maior processadora de carne de frango do mundo. Ele fazia parte de uma comissão que criava padrões de higiene para o setor. Espy foi afastado depois que uma investigação federal revelou que ele recebera passagens aéreas, ingressos para eventos esportivos, uma bolsa de estudo de US$ 1.200 e outros presentes que somavam US$ 12 mil. Um dos lobistas chegara a pedir ao presidente da Aveia Quaker para dar ao assessor de Clinton dois ingressos de US$ 90 para um jogo de futebol americano. Outro lobista foi reembolsado pela Sun-Diamond (fabricante de nozes e frutas secas da Califórnia) depois de levar Espy para ver as partidas do torneio de tênis US Open. O secretário foi inocentado, mais tarde, porque os promotores não conseguiram convencer o juiz de que os presentes tiveram a intenção de influenciar o USDA. Mas essas histórias são corriqueiras. O pior é quando a indústria resolve oprimir as vozes críticas.
ÉPOCA - Como a indústria alimentícia faz isso?
Marion - A indústria de alimentos processa legalmente qualquer um que questione suas práticas. Um dos casos mais famosos envolveu a apresentadora americana Oprah Winfrey, cujo programa é visto por 22 milhões de telespectadores nos EUA. Em abril de 1996, ela entrevistava um ativista vegetariano sobre o medo da epidemia de vaca louca. Em certo momento da entrevista, Oprah comentou que, por receio, tinha parado de comer hambúrgueres. A resposta foi um processo de US$ 10 milhões dos pecuaristas do Texas por incitar o medo na mente dos consumidores. Oprah foi inocentada quatro anos depois. Mas gastou mais de US$ 1 milhão com advogados. Embora tenham perdido o processo, os fazendeiros conseguiram demonstrar que a ameaça de ação judicial pode abafar o debate sobre práticas controversas da indústria de alimentos.
ÉPOCA - Por que a participação das empresas ameaçaria a isenção das recomendações nutricionais?
Marion - O papel das empresas é vender os produtos em quantidades cada vez maiores. Elas não são agências de serviço social. Farão qualquer coisa para lucrar mais, o que inclui anunciar especificamente para crianças de 2 anos, se necessário. Como fazem as empresas de cigarro. Aliás, a Philip Morris é dona do terceiro maior conglomerado de empresas alimentícias dos EUA. Só nos Estados Unidos, essas empresas gastam US$ 34 bilhões em publicidade e marketing. A verba para divulgar uma marca de refrigerante é cem vezes maior que o orçamento que o Instituto Nacional do Câncer tem para a campanha de incentivo ao consumo de frutas e vegetais (a recomendação médica é comer cinco porções desses alimentos ao dia). Companhias de refrigerante chegam a comprar direitos de exclusividade para instalar máquinas em escolas públicas. As verbas que essas empresas destinam ao patrocínio de eventos esportivos estudantis são vinculadas ao nível de consumo de seus produtos naquela escola, o que leva os professores e diretores a estimular os alunos a beberem refrigerantes, em vez de opções saudáveis, como água e suco.
ÉPOCA - Qual é o risco da propaganda de alimentos nas escolas?
Marion - Mesmo quando os pais promovem uma dieta equilibrada em casa, podem estar ocupados demais para prestar atenção ao que os filhos comem na escola. Os marqueteiros da indústria de alimentos farão todo o possível para levar uma criança a pedir por um produto que foi anunciado, na esperança de que ela se torne um consumidor fiel daquilo por toda a vida. Isso coloca um peso enorme nos ombros dos pais, que precisam resistir aos pedidos para comprar determinada marca. E ainda têm de ensinar pensamento crítico a crianças cujas habilidades analíticas são imaturas. Muitas vezes o que acontece é que os pais cedem porque preferem reservar as discussões familiares sobre imposição de limites para assuntos que consideram mais sérios. Enquanto isso, os petiscos industrializados entram até em material didático.
ÉPOCA - Qual é o material didático?
Marion - Várias empresas, como a Kellogg's e a Nabisco, lançam livros que ajudam as crianças a contar. Para adquiri-los, é preciso comprar e consumir doces, biscoitos e cereais açucarados da marca. Os livros ensinam as crianças a contar usando esses doces como fichas. Isso inviabiliza qualquer orientação pedagógica para não brincar com comida. Alguns vêm com cupons de desconto para a compra dos produtos. E fazem sucesso. Um deles, editado pela Cheerios, fabricante de cereais matinais, vendeu mais de 1,2 milhão de cópias entre 1998 e 2000.
''Fábricas de refrigerante chegam a comprar direitos de exclusividade para instalar máquinas de venda nas escolas dos EUA''
ÉPOCA - A indústria anuncia o lançamento de produtos enriquecidos com nutrientes como cálcio, ômega 3 ou vitaminas. Isso tem valor nutricional?
Marion - Muito pouco. Além disso, há poucas evidências de que os americanos tenham deficiências em vitaminas e minerais. Quem ingere esses alimentos enriquecidos alcança a dose diária recomendada só com o café-da-manhã. Não precisaria ingerir mais nada durante o resto do dia. As empresas anunciam que os produtos têm vitaminas porque isso constitui uma estratégia de marketing fantástica. Faz as pessoas acreditar que aquele alimento é saudável, sem questionar a quantidade de calorias. A propaganda dos alimentos visa vender mais, e não contribuir para uma dieta saudável. Os consumidores devem ter ceticismo como se estivessem diante de campanhas publicitárias de remédios, cigarros ou bebidas alcoólicas. Nós selecionamos nossa dieta em um ambiente de marketing em que são gastos bilhões de dólares para nos convencer de que as recomendações médicas são confusas e de que comer direito é tão difícil que não há problema algum em escolher um pouco mais de determinado produto.
ÉPOCA - E os alimentos funcionais? Como eles podem ajudar numa dieta saudável?
Marion - É mais uma estratégia de marketing que um instrumento nutricional. Todos os alimentos e bebidas incluem ingredientes essenciais à vida. Qualquer um deles pode ter seu benefício à saúde anunciado. O problema são os abusos. Pode levar a conseqüências absurdas, como a tentativa de transformar o ketchup Heinz em um alimento funcional. Há cinco anos, a empresa publicou anúncios em jornais sugerindo que o licopeno, substância presente no tomate, pode ajudar a reduzir o risco de câncer cervical e de próstata. O ketchup contém tomate processado, açúcar e sal e dificilmente pode ser considerado um alimento saudável. Inclusive porque é usado tipicamente em hambúrgueres e batatas fritas. O anúncio destacou um componente do ketchup, o licopeno, um pigmento presente em tomates e outros vegetais. A Federal Trade Comission (que fiscaliza a competição privada nos EUA) abriu uma investigação, que foi interrompida quando a Heinz parou de se associar ao licopeno. Mas nesse ínterim a empresa teve um aumento de 4% de participação no mercado.
lipão/fê escreveu às
12:27:00 PM -